'Alphaville' - Godard mescla gêneros cinematográficos em obra-prima que defende a Liberdade e a Arte, antecipou o Cyberpunk e influenciou 'Blade Runner' e 'Matrix'!

'Alphaville' - Godard mescla gêneros cinematográficos em obra-prima que defende a Liberdade e a Arte, antecipou o Cyberpunk e influenciou 'Blade Runner' e 'Matrix'!  - Marcos Doniseti!

'Alphaville' (1965) foi o primeiro filme que misturou filme Policial Noir com Ficção Científica, mas ele também possui elementos do Expressionismo Alemão, de Western, Romance e de História em Quadrinhos. O filme também remete ao mito grego de Orfeu e Eurídice.

"Quer sejamos vencedores, quer vencidos, a civilização das Máquinas não tem necessidade alguma de nossa língua: nossa língua é precisamente a flor e o fruto de uma civilização absolutamente distinta da civilização das Máquinas".

Georges Bernanos, em 'A França Contra os Robôs' (1945).

"O  homem  põe  e  dispõe.  Depende  dele  só  pertencer-se  por  inteiro,  isto  é,  manter  em  estado anárquico o bando cada vez mais medonho de seus desejos. A poesia ensina-lhe isso.  Traz  nela  a  perfeita  compensação  das  misérias  que  padecemos.  Ela  pode  ser  também  uma  ordenadora,  bastando  que  ao  golpe  de  uma  decepção  menos  íntima  se  tenha a idéia de tomá-la ao trágico. Venha o tempo quando ela decrete o fim do dinheiro e parta,  única, o pão do céu para a terra!".

André Breton, no 'Manifesto Surrealista', 1924. 

"Você não vê que a verdadeira finalidade da Novafala é estreitar o âmbito do pensamento? No fim teremos tornado o pensamento-crime literalmente impossível, já que não haverá palavras para expressá-lo. Todo conceito de que pudermos necessitar será expresso por apenas uma palavra, com significado rigidamente definido, e todos os seus significados subsidiários serão eliminados e esquecidos". 

George Orwell, em '1984' (páginas 68-69). 

"As vezes a realidade pode ser muito complexa para ser transmitida pela palavra falada. A lenda remodela-a em uma forma que pode se espalhar por todo o mundo".

'Alpha 60', em 'Alphaville'.  

"Precisamos de poucas palavras para expressar o essencial; precisamos de todas as palavras para torná-lo real". 

Paul Éluard, poeta Surrealista francês.

O computador inteligente 'Alpha 60', que controla tudo em Alphaville, cujo formato circular reflete a própria concepção de Tempo do mesmo, que eliminou o passado e o futuro.

A produção de Alphaville!

'Alphaville' (1965) é um dos mais populares filmes de Godard, sendo bastante apreciado até mesmo por pessoas que não são grandes admiradores da obra do revolucionário e inovador cineasta, que possui dupla nacionalidade, francesa e suíça.

No entanto, algumas pessoas dizem que a história do filme seria 'meio boba'.

Na verdade, isso acontece em quase todos os filmes de Godard. As histórias, propriamente ditas, de seus filmes são muito simples. Mas elas servem apenas como um ponto de partida para que Godard possa comentar sobre inúmeros outros assuntos, relacionados à Arte, História, Ciência, Civilização, Amor, Filosofia, Humanidade, Cinema, Literatura.

Em 'Alphaville', por exemplo, temos um agente secreto (Lemmy Caution), que mais se parece com um detetive de filme policial Noir (Humphrey Bogart, no qual é inspirado) que vai até a cidade de 'Alphaville' para prender, matar ou eliminar um cientista (Leonard Nosferatu/von Braun) que fugiu dos 'Países Exteriores' e foi para outra galáxia, da qual Alphaville é a capital.

Esse é um tipo de história semelhante à dos Westerns, quando vemos, com frequência, cartazes escritos com frases do tipo 'Procurado! Vivo ou Morto' e no qual um xerife ou caçador de recompensas vai atrás de algum criminoso ou fugitivo. Inclusive, quando vê a foto de von Braun e olha a mesma no verso, onde está escrito 'Capturar: Vivo ou Morto'.

O início de 'Alphaville' mostra duas imagens, sendo que na primeira vemos pessoas lutando contra um tanque, resumindo a proposta do filme, da luta dos indivíduos contra um Estado Totalitário. A segunda imagem mostra uma pomba iniciando o seu voo rumo à liberdade.

Aliás, Godard disse que se inspirou no filme 'The Searchers' (Rastros de Ódio', 1956), de John Ford, para fazer 'Alphaville'. No filme de Ford temos um personagem (Ethan, interpretado por John Wayne), que vai a procura de uma jovem que foi sequestrada por índios Comanches, com o objetivo de libertar a mesma. 

Também é nítida a influência das histórias em quadrinhos sobre o filme, tanto que Godard fez o seu assistente criar e publicar uma história em quadrinhos do filme em uma revista francesa ('La Cinématographie française') antes do lançamento. 

Além disso, para fazer 'Alphaville', Godard também se utilizou e misturou elementos presentes em dois livros de ficção científica, que são 'Eu Sou a Lenda', de Richard Matheson, e 'Non-Stop', de Brian Aldiss. E temos referências fundamentais a outras obras literárias, como '1984', de George Orwell, 'Admirável Mundo Novo' (Aldous Huxley) e o 'Manifesto Surrealista' (André Breton), entre outras.

E Godard também se interessou por temas como Cibernética e Inteligência Artificial, o que ocorreu a a partir de uma conversa que travou com Antonioni, durante o Festival de Veneza de 1964, na qual o cineasta italiano lhe disse sobre a pesquisa que havia feito sobre estes assuntos para o seu filme 'Deserto Vermelho'. 

Godard se interessou bastante e também pesquisou sobre estes temas, dizendo que descobriu que eles eram cada vez importantes nas decisões de empresários e governantes. 

Além disso, 'Alphaville' também era visto por Godard como sendo um desenvolvimento de um segmento que havia produzido para um projeto coletivo, intitulado 'RoGoPaG' (Rossellini, Godard, Pasolini e Gregoretti; 1963).

Lemmy Caution tem a aparência de um detetive policial de filme Noir, mas o personagem também inclui elementos que remetem ao papel de xerife e agente secreto. Ele penetra em 'Alphaville' com o objetivo destruir aquela sociedade totalitária que escraviza as pessoas e as impede de enxergar a realidade. Qualquer semelhança com Neo e 'Matrix' não é mera coincidência.

Este segmento se chamou 'Le Nouveau Monde' e mostrava as mudanças que ocorriam na vida dos moradores de Paris após ocorrer uma explosão nuclear 120 quilômetros acima da cidade, em especial na vida de um casal, cujo marido não consegue mais se comunicar com a esposa, que mudou radicalmente o seu comportamento após a explosão nuclear. 

'Le Nouveau Monde' também foi feito por Godard como uma espécie de resposta a Rossellini, que lhe disse que seu filme 'Viver a Vida' (1962) era muito influenciado pela obra de Antonioni. E daí Godard decidiu fazer de 'Le Nouveau Monde' uma obra tipicamente anti-Rossellini e que reforçava a influência de Antonioni, tanto que temos apenas breves diálogos entre o casal no filme. 

No caso de 'Alphaville', a iniciativa de querer trabalhar com Godard foi do próprio ator Eddie Constantine, ator originário dos EUA que fazia muitos filmes de detetives na França, onde se tornou bastante popular interpretando o personagem Lemmy Caution, criado pelo escritor britânico Peter Cheyney. 

E depois o cineasta também demonstrou interesse em trabalhar com o ator. Inclusive, em função deste trabalho com Godard, Constantine teve todos os seus filmes anteriores comprados para serem exibidos por canais de TV dos EUA. 

Godard também deixou claro que, apesar de possuir elementos futuristas, a sociedade que ele mostra em 'Alphaville' é a do presente (de 1965...), pois os países industrialmente desenvolvidos, com uma ciência e tecnologia avançadas, para Godard, já possuíam as características que ele mostra no filme.

'Alphaville' é marcado pela escuridão na imensa maioria das cenas, o que reflete a influência do Expressionismo Alemão e do Filme Noir sobre essa obra de Godard, que também possui elementos de Romance, Western, Ficção Científica e História em Quadrinhos.

O filme contou com um orçamento extremamente reduzido, de apenas US$ 220 mil dólares, o que impediu Godard de usar efeitos especiais e também o levou a usar de muita criatividade para poder reduzir as despesas. 

Assim, o computador inteligente 'Alpha 60' é, de fato, um ventilador da Philips que custava apenas US$ 3 dólares. E a voz de 'Alpha 60' também não tem nada de efeito especial, mas era a voz de um homem que havia extraído a laringe e que falava pelo diafragma.

Godard também fez as filmagens nas áreas mais modernas de Paris, nos prédios de escritório e residenciais recentemente construídos, chamados 'La Defense', bem como nos edifícios da Rádio Nacional de Paris e da empresa de informática 'Bull'. 

As filmagens nestes locais modernos da cidade, junto com o uso de ângulos de câmera diferentes e de uma fotografia bem escura, com o uso de uma película que escurecia as imagens e que era produzida por uma empresa britânica (Ilford), fizeram com que Godard conseguisse dar um ar bastante futurista para a Paris de 1965. 

As filmagens eram feitas com tão pouca luz, e tudo ficava tão escuro, que a continuísta Suzanne Schiffman disse que 'Alphaville foi praticamente filmado sem luz, no escuro'. Coutard avisou Godard dos riscos de se fazer isso, mas ele se precaveu filmando um grande número de tomadas e de cenas em muitos ângulos. Mesmo assim, apesar do fato de que 3000 metros de filmes ficaram inutilizáveis, Godard incluiu várias destas cenas no filme.

A cidade de Alphaville resumida em 4 palavras, que expressam o caráter totalitário da sociedade controlada pelo 'Alpha 60', computador dotado de inteligência artificial, que foi criado por um cientista, o professor Leonard Nosferatu/von Braun.

A trama de 'Alphaville'!

A abertura do filme mostra o computador inteligente 'Alpha 60', que controla a cidade de Alphaville. 

E logo depois vemos duas imagens, uma que mostra algumas pessoas lutando contra um tanque de guerra (remetendo a países que foram invadidos ou povos que sofrem com a repressão do Estado) e uma outra que mostra uma pomba da paz sendo libertada. 

Assim, já tomamos conhecimento, desde o início, dos conflitos que veremos no filme, entre Luz X Trevas, Liberdade X Escravidão, Indivíduo X Estado Totalitário, Poesia X Lógica.  

E logo na sequência, 'Alpha 60' diz o seguinte: "As vezes a realidade pode ser muito complexa para ser transmitida pela palavra falada. A lenda remodela-a em uma forma que pode se espalhar por todo o mundo".

De certa maneira, é exatamente isso que Godard fez em 'Alphaville', transformando outras palavras, que foram proferidas sob outras maneiras de se expressar (poesia, literatura, filosofia, cartazes, música, sons, histórias em quadrinhos, slogans publicitários, publicidade, neons) em uma nova forma, que reúne todas as outras, que é o Cinema. Afinal, Godard sempre disse que o Cinema é a única forma de Arte que reúne todas as Artes.

Espaços urbanos escuros e com propaganda de grandes empresas no topo de edifícios... Será que é 'Blade Runner' (1982), do Ridley Scott? Não... É 'Alphaville', do Godard, 17 anos antes do filme Neo-noir e futurista que se tornou cult nos anos 1980.

Em 'Alphaville' nós vemos o agente secreto Lemmy Caution, originário dos 'Países Exteriores', viajar até a cidade de Alphaville, capital de uma outra galáxia. Ele usa chapéu, um sobretudo e também o vemos acendendo um cigarro e mostrando a sua arma. Então, percebemos que ele está ali para uma ação que não será pacífica e nem amistosa. 

E logo que ele chega já ouvimos uma narração feita por Caution e na qual temos uma referência a '1984', de George Orwell, pois Lemmy Caution diz que chegou às 24.17, 'hora Oceânica', pois a história do livro se desenvolve em um país chamado 'Oceania'. E daí aparece um cartaz com o nome da cidade (Alphaville) e, logo abaixo, temos 4 palavras: Silêncio, Lógica, Segurança e Prudência.

Essas quatro palavras deixam claro como é que a cidade de Alphaville está organizada e que a mesma é, claramente, um Estado totalitário controlado pela Lógica, baseada em uma Razão fria e tecnicista. 

Assim, o governo totalitário de Alphaville já está dizendo aos seus moradores: Fiquem em Silêncio, usem apenas da Lógica, para que possam viver de forma Segura, sendo Prudentes em suas ações. E quem não faz isso é eliminado ou passa por um processo imposto de reeducação.

Lemmy Caution vai até Alphaville disfarçado de jornalista (usando o nome Ivan Johnson) e recebe uma missão, que é a de ir atrás de um cientista, chamado Leonard von Braun que, anteriormente, quando vivia nos 'Países Exteriores', se chamava Leonard Nosferatu.

'Alpha 60' usava das 'Sedutoras', jovens e belas mulheres que agradavam aos visitantes, ao mesmo tempo que os vigiavam, para evitar que criassem problemas para o governo totalitário da galáxia.

O nome do cientista é uma referência ao Expressionismo Alemão ('Nosferatu', de F. W. Murnau, é um dos maiores clássicos do gênero), que influenciou Godard na realização do filme. 

No filme de Godard, o cientista Nosferatu/von Braun havia participado do 'Projeto Manhattan', que levou à construção das primeiras bombas atômicas. O cientista cometera alguns crimes e fugira para Alphaville, levando junto a sua filha, a bela Natasha (interpretada por Anna Karina).

Em Alphaville, Leonard von Braun criou um computador (Alpha 60) dotado de Inteligência Artificial, que passou a controlar inteiramente a forma de pensar e de viver dos indivíduos, transformando-os em verdadeiros robôs, seres automatizados, inteiramente desprovidos de alma e de sentimentos. Os moradores de 'Alphaville' possuem corpos inteiramente naturais, orgânicos, mas a sua mente é controlada pelo computador 'Alpha 60'.

Lemmy Caution diz, assim, que os moradores de 'Alphaville' são seres mutantes, pois eles são parte humanos (corpo) e parte máquina (mente). Essa mescla de homem e máquina remete ao clássico 'Metropolis' (1927), dirigido por Fritz Lang, e se tornará comum na Ficção Científica. 

Veremos isso, posteriormente, em filmes como 'Blade Runner' (Ridley Scott; 1982), 'O Mundo por um Fio' (Fassbinder; 1973), 'Matrix' (Lily e Lana Wachowski; 1999) e no anime 'Ghost in the Shell' (Mamoru Oshii; 1995), que depois contou com uma adaptação para o cinema, em 2017, com Scarlet Johansson no papel principal.

Em 'Metropolis' (1927), dirigido por Fritz Lang e roteirizado por Thea von Harbou, o cientista Rotwang cria uma réplica artificial de Maria.

Assim, neste modelo de sociedade, de caráter claramente Totalitário, as pessoas foram destituídas de emoções ou sentimentos, sendo proibidas de amar, de chorar, de sofrer... A atividade sexual na cidade é permitida, mas apenas visando apenas o prazer físico, sem qualquer amor ou paixão envolvidos em sua realização. 

Inclusive, o governo da galáxia oferece aos visitantes, como Lemmy Caution, belas e sensuais jovens, que são chamadas de 'Sedutoras' (referência às Femme Fatales dos filmes Noir), cuja função era seduzir e, ao mesmo tempo, permitir que os visitantes fossem vigiados e mantidos sob controle, o que é uma típica ação de um Estado Policial e repressivo.

Em Alphaville quem ainda se comporta de uma maneira emotiva é eliminado pelo Estado, o que vemos acontecer em uma sequência que lembra os filmes de Esther Williams, pois tais pessoas são metralhadas e seus corpos caem em piscinas, onde belas nadadoras terminam por matar estas pessoas, esfaqueando as vítimas. Esta cena é uma referência feita por Godard aos filmes de Esther Williams.

Em um momento desta sequência, um homem que está prestes a ser executado diz o seguinte: 'Uma verdade que diz que a essência do homem é amor e fé, coragem e ternura, generosidade e sacrifício. Todo o resto é um obstáculo colocado pelo seu progresso cego e ignorância'. 

O cientista Leonard von Braun, cujo nome remete a Leonardo da Vinci e ao cientista Wernher von Braun, que projetou os foguetes V-2 e comandou o Projeto Apollo. Seu nome resume o conflito entre Luz e Trevas que vemos no filme.

Quando Natasha leva Lemmy Caution para ver essas execuções nós vemos eles entrarem em um elevador que os conduz a um porão, onde fica o local das execuções. A palavra porão em francês se escreve 'souls-sol', formando a sigla SS, o que remete diretamente ao Nazismo, é claro.  

Também temos uma referência à Primeira Guerra Mundial, quando um agente de Alphaville diz que o 'Plano 17' havia fracassado. E 'Plano 17' foi a estratégia usada pelo Exército francês no início da Guerra e que foi um gigantesco fracasso, pois atacou os alemães pelo sul, mas a maior parte das tropas alemãs estava concentrada no norte, invadindo a França depois de conquistarem a Bélgica, pois assim a conquista de Paris seria mais rápida.

E um agente infiltrado, amigo de Lemmy Caution que vive em 'Alphaville', chamado Henri Dickson, lhe informa que, na cidade, os artistas (romancistas, músicos, pintores, poetas, etc) também são perseguidos, o que resultou no desaparecimento de toda e qualquer forma de Arte e de pensamento livre e criativo. 

Henri Dickson lhe dá um livro de poesias ('A Capital da Dor', de Paul Eluard) que, depois, será usado por Caution, que também recebe a informação de que deverá usar de 'Consciência' para destruir 'Alpha 60'. Este livro terá um papel fundamental na missão de Caution, pois o mesmo será usado para ajudar a libertar Natasha von Braun da situação de escuridão e de escravidão em que ela vive.

Além disso, Lemmy Caution acaba se apaixonando por Natasha, filha de von Braun, e passou também a querer levá-la de volta, para os 'Países Exteriores', na expectativa de que ela também pudesse se apaixonar por ele. Natasha nasceu nos 'Países Exteriores', mas não se recorda mais disso, pois seu pai eliminou essas memórias de sua mente.

Portanto, em 'Alphaville', Godard conta um tipo de história parecida com a que vemos 'The Searchers' (John Ford; 1956), com um agente infiltrando-se em um território inimigo para resgatar algumas pessoas, mas o seu filme vai muito além disso.

Lemmy Caution acende o cigarro de Natasha von Braun, filha do cientista que criou 'Alpha 60'. Esta cena sintetiza o que veremos no filme, ou seja, que Caution foi levar Luz para os habitantes robotizados, que não possuem livre-arbítrio e ignoram os Sentimentos, a Arte e a Poesia.

Aliás, neste aspecto, há um claro elemento autobiográfico no filme, pois pouco tempo antes de começarem as filmagens de 'Alphaville', em Dezembro de 1964, Anna Karina e Godard tinham se divorciado, mas o cineasta não desistiu de reconquistar a mulher que amava e tentou uma reaproximação com a ex-esposa durante a realização do filme. 

Mas esse reatamento entre os dois jamais aconteceu, embora Godard e Anna Karina tenham trabalhado juntos em mais três produções, que foram 'Pierrot le fou' (1965), 'Made in USA' (1966) e o segmento 'Anticipation - O Amor no Ano 2000' (1967), que fez parte de um projeto coletivo que também envolveu outros cinco cineastas, como Mauro Bolognini, Philippe de Broca e Claude Autant-Lara, intitulado 'O Amor Através dos Séculos' (1967). 

Aliás, no segmento de Godard ('Anticipation'), Anna Karina interpreta uma mulher que também se chama Natasha e o mesmo também é uma ficção científica de caráter futurista que mistura política, ideologia e romance, tal como acontece em 'Alphaville'. 

Assim, em 'Anticipation' (1967), Godard acaba retomando alguns dos temas que estão presentes em 'Alphaville' e, no mesmo, ele também procurava por uma explicação para entender o fim do relacionamento dele com Anna Karina. Inclusive, neste segmento, tal como ocorre em 'Alphaville', a personagem de Anna Karina (Angela) também não possui emoções ou sentimentos, sendo que ela também é proibida de amar pelo Estado.

Em 'Alphaville', o nome do cientista, criador de 'Alpha 60', é uma referência à Leonardo da Vinci e os seus dois sobrenomes (Nosferatu e von Braun) referem-se ao Expressionismo Alemão e também ao cientista Wernher von Braun, que criou os foguetes V-2 para a Alemanha Nazista e liderou o projeto Apollo dos EUA, que colocou astronautas do país na Lua (em 1969), permitindo que os mesmos conseguissem derrotar a URSS na corrida espacial.

No início há um estranhamento entre Lemmy Caution e Natasha, pois eles desconhecem a Linguagem que o outro utiliza. Assim, quando ele fala sobre Amor e Paixão, ela não sabe sobre o que ele está falando, pois os sentimentos e as emoções foram extintos em Alphaville.

Assim, Luz e Arte, de um lado, Trevas e Ciência, de outro, se enfrentam em 'Alphaville'. E o filme tem um final feliz, o que é algo extremamente raro na obra de Godard.

O nome Leonard von Braun/Nosferatu e o conflito com Lemmy Caution sintetizam o tema central de 'Alphaville', que é o conflito entre Luz e Trevas, Liberdade e Escravidão, Arte e Ciência, pois o nome Leonard remete a Leonardo da Vinci, artista e cientista extremamente criativo, inovador e talentoso, enquanto que os seus dois sobrenomes (Nosferatu e von Braun) lembram morte, destruição, nazismo e escravidão.

E é justamente isso que vemos no filme, que retrata um conflito entre a Arte, que é resultado da iniciativa de indivíduos livres, criativos e talentosos e uma Ciência fria e desumanizadora, que cria um Estado Totalitário. 

Isso é feito com a utilização de um computador inteligente, que é 'Alpha 60', que controla tudo em Alphaville, sendo que o mesmo eliminou o pensamento livre, a iniciativa, os sentimentos, as emoções das pessoas. E aquelas pessoas que ainda preservam e demonstram emoções são eliminadas.

Em 'Alphaville' até mesmo palavras são eliminadas ou mescladas com outras, gerando novas, pois é por meio do controle da Linguagem que 'Alpha 60' impõe a sua Ditadura fria, racional e tecnicista, sendo que temos um 'Instituto de Semântica Geral' que cuida de promover essas mudanças na Linguagem que é usada por seus habitantes.

Porém, isso acontece porque a Ciência e a Tecnologia impõe esse tipo de existência, criando indivíduos à sua imagem e semelhança, ou seja, puramente lógicos, frios, sem sentimentos, destituídos de tudo aquilo que os faz humanos. 

Por isso mesmo que temos uma série de referências à Ciência e a cientistas importantes no filme, como Einstein, Enrico Fermi e Heisenberg. Existe, até mesmo, um Parque da Matemática em Alphaville.

Henri Dickson é um agente que vive há muitos anos em Alphaville e ajuda Lemmy Caution em sua missão. Porém, ao mesmo tempo, ele não resiste à tentação e se deixa envolver com as jovens e belas 'Sedutoras' da galáxia.

Este conflito entre Luz e Trevas é mostrado por Godard de várias maneiras, tal como acontece nas cenas em que Lemmy Caution aparece, pois nelas quais sempre temos a presença de lâmpadas, semáforos, luminosos, enfim de uma fonte de Luz, enquanto a cidade é mostrada imersa em uma vasta escuridão, simbolizando a Ignorância e a Escravidão em que os seus habitantes vivem. 

Assim, Lemmy Caution está levando Luz, ou seja, Liberdade, para os habitantes de Alphaville, que são desprovidos de alma e de emoções, possuindo uma expressão permanentemente triste e melancólica, pois eles são meros robôs controlados por 'Alpha 60', controle este que é feito por meio da eletricidade, tal como Natasha diz para Lemmy Caution.

Portanto, a cidade de Alphaville é caracterizada pelas Trevas, o que explica a escuridão quase que total que vemos no filme. Aliás, Godard enfrentou dificuldades em função disso. Ele queria fazer o filme inteiro com cenas escuras, o que o levava a filmar apenas durante a noite. Porém, as leis trabalhistas francesas o obrigavam a pagar adicional noturno a todos os que trabalhavam no filme. 

No entanto, Godard não tinha recursos financeiros para pagar a todos. Ele conseguiu finalizar o filme porque descobriu que uma empresa britânica (Ilford) havia criado uma película cinematográfica que escurecia as imagens e, daí, Godard foi até a Inglaterra para comprar a mesma, o que lhe permitiu concluir o filme. 

O grande número de cenas noturnas, bastante escuras, levou a que o pessoal que trabalhou no filme afirmasse que 'Alphaville' era o filme no qual ninguém enxergava nada, o que não impediu Godard de fazer o filme da maneira que desejava.

Lemmy Caution e Henri Dickson são aliados e o segundo é quem informa ao primeiro qual é a maneira correta de destruir 'Alpha 60', com o uso da Consciência. E Dickson também pede a Caution que ajude aqueles que choram, ou seja, as pessoas que possuem sentimentos e que são eliminadas em Alphaville.

O diretor de fotografia de 'Alphaville', Raoul Coutard, que trabalhava sempre nos filmes de Godard, desde 'Acossado', afirmou, inclusive, que o filme foi feito como se eles estivessem realizando o mesmo em plena Idade Média.

Este período entrou para a história com a fama de ter sido uma 'Idade das Trevas', devido à perseguição que foi promovida contra artistas, filósofos, escritores, entre outros, como foi o caso de Giordano Bruno, por exemplo, que foi queimado vivo em 1600 por ordens da Inquisição por contestar os ensinamentos da Igreja Católica. 

E isso também ocorre na cidade de Alphaville, onde os artistas e pessoas dotadas de sentimentos são eliminadas por ordens de 'Alpha 60'.

Em 'Alphaville' o espião Lemmy Caution encontra Henri Dickson, um detetive que ainda tem sentimentos e emoções, que aprecia poesia, pintura e literatura e que vive na cidade já há muitos anos, mas que está cada vez mais doente e debilitado. 

Em uma cena nós vemos Dickson entregar o livro de poesias 'A Capital da Dor', de Paul Eluard (poeta surrealista francês) para o agente secreto. A escolha desse livro, que aparece muito no filme, não foi aleatória, pois na visão de Godard o seu título já expressa o que é, em grande parte, a história que vemos em 'Alphaville'.

E será esse livro de poesias que Lemmy Caution irá usar para livrar Natasha da escuridão que ela vive em Alphaville, permitindo que ela tome contato com palavras que desconhecia ou que havia esquecido, como era o caso de 'Consciência'. Portanto, é a Poesia, a Arte, que permite que as pessoas se libertem da situação de escravidão e ignorância na qual vivem em 'Alphaville'.

Alphaville é uma cidade marcada pela existência de grandes edifícios, que são frios, alienantes e burocráticos. As filmagens foram realizadas em uma área de Paris onde haviam sido construídos, há pouco tempo, modernos edifícios residenciais e de escritório, que se chamava 'La Defense'.

Natasha havia nascido nos Países Exteriores, mas foi levada para Alphaville pelo seu pai e, assim, esqueceu destas palavras, pois na nova cidade elas eram eliminadas ou se mesclavam com outras, dando origem a novas expressões, o que revela a influência do livro distópico de George Orwell, '1984', sobre o filme, como já comentei. 

É a partir do momento em que entrará, novamente, em contato com estas palavras (Consciência, em especial), que lhes são apresentadas por Lemmy Caution, que Natasha começará a reativar a sua memória e a recuperar os sentimentos, como o Amor, que haviam sido eliminados em sua vida na 'capital da dor'. Será por meio da Poesia, da Arte, que Natasha irá recuperar a sua liberdade e a sua humanidade.

Questões ideológicas da época também estão presentes no filme. Assim, o jornal para o qual Lemmy Caution diz que está trabalhando se chama 'Figaro-Pravda', o que é uma maneira de Godard de mostrar o seu espírito altamente crítico com relação às duas superpotências da época (EUA e URSS), vistas de maneira bastante negativa pelo cineasta. 

Na cidade, Dickson é uma figura marginalizada na sociedade e vive na periferia (um gueto), sendo frequentemente pressionado a cometer suicídio, pois ele é considerado um dissidente, que não vive conforme as regras impostas por 'Alpha 60'. O personagem é interpretado pelo ator Akim Tamiroff, que havia trabalhado com Orson Welles (em 'A Marca da Maldade', 'Mr. Arkadin' e 'O Processo'), um dos cineastas mais admirados por Godard.

Em 'Alphaville' algumas pessoas são consideradas como sendo possíveis de serem recuperadas e, para isso, elas são levadas para um hospital, no qual são submetidas a muitas horas de vídeos e filmes contendo propaganda e doutrinação.

Alphaville é uma cidade com tecnologia moderna, com a presença de muitos locais com formas circulares. A concepção de Tempo que predomina na cidade é circular, pois 'Alpha 60' diz que ninguém existiu no Passado e nem irá existir no Futuro, existindo apenas um eterno e imutável Presente.

Embora não tenhamos a presença de uma cena como essa em 'Alphaville', Kubrick usou dessa mesma ideia em seu clássico 'Laranja Mecânica' (1971) e, com muito mais recursos do que Godard, a filmou brilhantemente. O cineasta francês apenas citou essa ideia em seu filme, devido ao orçamento bastante reduzido do filme.

Godard também mostra, no filme, uma visão extremamente crítica em relação à Civilização industrial moderna, altamente tecnológica e que, em sua visão, possui um nítido caráter totalitário. Tal civilização controla o comportamento das pessoas, reprimindo os seus sentimentos, emoções, mostrando que a mesma leva à desumanização dos indivíduos e também promove a destruição da Arte e da liberdade individual. 

Esta visão, que é adotada por Godard no filme, é baseada no livro 'A França Contra os Robôs', escrito em 1944/1945, e que é um livro com um longo ensaio no qual o escritor francês Georges Bernanos condena a Civilização Industrial, construída com base na Ciência e na Tecnologia. 

Godard disse que releu o livro um pouco antes de começar a filmar 'Alphaville' e afirmou que compartilhava com Bernanos da visão que este possuía a respeito da Civilização Industrial. 

A criação desta Civilização resultaria, na concepção de Bernanos, no aumento contínuo do poder do Estado e na completa destruição da liberdade do indivíduo. Ele também diz que isso ocorre independente do modelo de Estado e Sociedade que seja adotado: Capitalismo Liberal, Socialismo Estatizante, Fascismo, Nazismo.

As jovens e belas 'Sedutoras' de Alphaville possuem, cada uma, um número de identificação, o que é uma referência aos campos de concentração e de extermínio nazistas. Nesta sequência, Natasha, Lemmy Caution e essa 'Sedutora' estão no elevador, indo para o porão que, em francês, se escreve souls-sol, ou seja, SS. E a sigla SS aparece logo depois.
 

Para o escritor francês, que viveu no Brasil entre 1938 e 1945, quando voltou para a França a pedido do general Charles de Gaulle, qualquer sociedade que seja baseada na Ciência e Tecnologia criará seres humanos desprovidos de alma, inteiramente robotizados, o que é condenado por ele. Na visão de Bernanos as Máquinas é que deveriam servir aos seres humanos e não estes que teriam que servir às Máquinas.

De acordo com Bernanos, a França era o único país que poderia, no Pós-Guerra, criar um modelo de Sociedade e de Estado radicalmente distinto, que seria baseado no humanismo e na liberdade individual, pois era uma nação que havia herdado os valores humanistas da Grécia Antiga e de defesa da Liberdade feita pela Revolução Francesa de 1789.

O filme de Godard também faz inúmeras outras referências literárias, como são os casos do romance policial Noir 'O Sono Eterno', de Raymond Chandler, e dos romances distópicos '1984', George Orwell, e 'Admirável Mundo Novo', Aldous Huxley. E quando uma das 'Sedutoras' pergunta para Lemmy Caution se ele quer dormir, ele diz que sim, pois assim poderá sonhar, o que é uma referência a 'Hamlet', de Shakespeare.

Outra citação literária e filosófica que temos no filme se dá quando Lemmy Caution respondeu, para 'Alpha 60', sobre o que transformava escuridão em luz e o mesmo respondeu que é a Poesia, o que é uma citação de Jean Cocteau. 

No final do filme temos mais uma citação literária, quando Lemmy Caution diz para Natasha que somente ela poderá se salvar, ao se lembrar das palavras que haviam sido eliminadas em Alphaville, caso contrário ela estará tão perdida quanto as Almas Mortas (livro de Nikolai Gogol) da cidade.

Obs2: Algumas destas citações são bem evidentes, como são os casos dos livros de Paul Éluard e de Raymond Chandler, que aparecem no filme, enquanto que outras exigem um certo conhecimento literário por parte do público para que possam ser identificadas.

Lemmy Caution e Natasha se apaixonam, mas ela ainda não dominava a linguagem necessária para poder expressar os seus sentimentos. Ela conseguirá isso depois que Lemmy Caution lhe dá um livro de poemas, de amor, de Paul Éluard.

E quando foi questionado por 'Alpha 60' sobre o que havia sentido ao atravessar os espaços galácticos o agente disse que 'o silêncio destes espaços infinitos me amedrontou', que é uma afirmação feita por Pascal. E neste momento Godard acabou revelando aquilo que Kubrick também mostrou em '2001' - Uma Odisseia no Espaço', ou seja, que o som não se propaga no espaço e que, logo, o Universo é silencioso.

O filme também faz referências ao livro 'Viagem ao Fim da Noite' (de Louis-Ferdinand Céline) em uma cena na qual uma motorista de táxi pergunta para Lemmy Caution qual é o seu destino, se é a região sul ou norte da cidade, e o mesmo responde que tanto faz, pois o que ele deseja é fazer uma 'viagem ao fim da noite'.

Desta maneira, o que Lemmy Caution manifesta, neste momento, é o desejo de destruir aquela sociedade totalitária que existe em 'Alphaville', que é sinônimo de Trevas, Ignorância e Escravidão, na qual toda e qualquer forma de liberdade individual (de pensar ou de sentir) foi destruída. 

Portanto, a sua postura é a de um revolucionário, como se fosse um Jacobino querendo destruir a Bastilha da cidade de Alphaville. Inicialmente, Caution tenta convencer o cientista von Braun a ir embora, com ele e a filha, para os 'Países Exteriores', mas a recusa do mesmo irá levar o agente a eliminar o cientista.

'Alphaville': Belíssimo poema visual que Godard criou. Ele se utilizou de trechos de inúmeros poemas de autoria do grande poeta Surrealista Paul Éluard, cujo livro 'A Capital da Dor' é usado por Lemmy Caution para libertar Natasha do domínio do 'Alpha 60'.

Essa atitude de Lemmy Caution também lembra a dos membros da Nouvelle Vague (Godard, Truffaut, Chabrol, Rivette e Rohmer) quando, na época em que eram colaboradores da revista 'Cahiers du Cinéma', atacaram ao cinema produzido na França na década de 1950, chamado de 'Tradição de Qualidade', que possuía um caráter padronizado e conservador e que impedia a entrada de novos membros para a indústria cinematográfica do país. 

Assim, os chamados 'Jovens Turcos' da 'Cahiers' assumiram a defesa de um Cinema Autoral e, quando começaram a realizar seus longas-metragens (Chabrol, Truffaut, Godard, Rohmer, Rivette), deram início a uma verdadeira revolução cinematográfica que teve impacto mundial.

Outra citação literária é a respeito do livro 'Almas Mortas' (Nikolai Gogol), o que é uma perfeita definição das pessoas que vivem em Alphaville, pois as suas almas foram destruídas, pois somente podem pensar e agir conforme a vontade do computador inteligente 'Alpha 60'. E o monólogo final feito por 'Alpha 60' é retirado de um texto de autoria do escritor argentino Jorge Luis Borges, embora Godard tenha feito algumas alterações no mesmo.

Aliás, este monólogo de 'Alpha 60' também inspirou o monólogo final do androide Roy Batty em 'Blade Runner' (1982), de Ridley Scott, pois ambos mostram uma forma de vida artificial que passa por um processo de humanização e cuja morte se aproxima. De fato, ambos (Alpha 60 e Roy Batty) dizem a mesma coisa, mas com palavras diferentes.

Obs: As semelhanças entre 'Alphaville' (1965) e Blade Runner (1982) são imensas, o que já comentei em outro texto que publiquei em meu outro blog de cinema (Classic e Cult). Ver link abaixo.

O cientista Leonard Nosferatu/von Braun criou o computador inteligente 'Alpha 60', que comanda Alphaville usando de uma Lógica fria e implacável, que resulta na eliminação das pessoas que ainda preservam emoções e sentimentos. Seu perfil foi copiado em 'Blade Runner', com o Dr. Tyrell sendo bastante semelhante a von Braun.

E no caso de 'Alphaville' o que levou 'Alpha 60' à morte foi o uso da Poesia por Lemmy Caution, que se utiliza de um trecho enigmático de um poema de Paul Eluard, sobre o amor, para provocar o computador, que se propõe a decifrar tal enigma. Lemmy Caution o adverte, dizendo que se ele decifrar o enigma, então ele irá se tornar humano, passando a ser 'o seu semelhante, o seu irmão'. 

Aliás, esta afirmação feita por Lemmy Caution foi retirada de um poema de Baudelaire intitulado 'Au lecteur', do livro 'As Flores do Mal'. Afinal, tal como Baudelaire, Godard também usa das suas experiências de vida como fonte de criação da sua obra.

Apesar disso, 'Alpha 60' decifra o enigma, mostrando que ele passou a entender e a dominar a Linguagem, e é justamente isso que leva à sua morte. Logo, a sua humanização, por meio da Poesia e da Linguagem, é que torna 'Alpha 60' mortal, levando ao seu fim. 

E é bom ressaltar que Paul Eluard foi um dos principais escritores e artistas Surrealistas. E o Surrealismo também defendeu a realização de uma revolução contra a Lógica, contra a Razão fria e tecnicista, a mesma que havia provocado a catástrofe da Primeira Guerra Mundial. 

E é exatamente isso que Lemmy Caution faz em 'Alphaville', com ele tentando destruir uma Civilização criada por uma Lógica fria, implacável e desumana, da mesma maneira que os Surrealistas o fizeram, tal como fica claro no 'Manifesto Surrealista', escrito por André Breton, em 1924.

Depois que Lemmy Caution conseguiu provocar a morte de 'Alpha 60', por meio de um enigma poético, Alphaville entrou em colapso, pois tudo que funcionava na galáxia dependia do computador. Essa imagem em negativo representa esse colapso.

Então, é como se Lemmy Caution, sob a forma de um xerife, detetive e agente secreto, que difunde a Poesia e uma nova forma de pensar e de viver, estivesse representando o próprio Paul Éluard em 'Alphaville'. E tudo indica que foi isso mesmo que Godard fez. Assim, o Western, o Policial Noir, o Thriller Político, a Filosofia e a Poesia, tudo estava presente e reunido em um único personagem. 

E também é desta maneira que vemos Neo, um hacker que penetra na Matrix a fim de libertar a humanidade da escravidão, escuridão e da ignorância na qual ela existe, naquele mundo artificial criado por máquinas inteligentes. Surrealismo, Paul Éluard, Lemmy Caution e Neo/Matrix: Está tudo interligado.

No filme, Godard também faz referências a acontecimentos históricos (Nazismo), bem, como à Guerra Fria entre EUA X URSS, quando existia um grande risco de uma guerra nuclear.

Este era um tema que amedrontava e assustava as pessoas na década de 1960, principalmente depois da 'Crise dos Mísseis'. Filmes como 'Eclipse' (1962), de Antonioni, e 'O Planeta dos Macacos' (1968), de Franklin J. Schaffner, também trataram deste assunto, retratando este medo.  

Em 'Alphaville', inclusive, a guerra nuclear chega a acontecer, mas Godard não teve como mostrar a mesma devido ao fato de que não tinha dinheiro suficiente para fazer isso.

Os moradores de Alphaville ficaram desnorteados e muitas também morreram depois que 'Alpha 60' entrou em colapso e acabou morrendo. O monólogo final de 'Alpha 60' foi baseado em um texto de Jorge Luis Borges e inspirou o monólogo final do androide Roy Batty em 'Blade Runner' (1982). 'Matrix' também foi outro filme que foi influenciado por 'Alphaville'.

E quanto ao uso do Ford Galaxy (na verdade é um Ford Mustang) como se fosse, ao mesmo tempo, um veículo terrestre e espacial, isso também se deveu ao fato de que Godard não tinha dinheiro suficiente para mostrar naves espaciais em 'Alphaville'. Aliás, Godard teve que usar muito da criatividade para viabilizar a produção, pois o orçamento do filme era muito reduzido. 

O computador 'Alpha 60', como já afirmei, era um ventilador barato da Philip que custava ridículos US$ 3 dólares e o comunicador que Lemmy Caution tem em seu quarto é apenas um peso que se coloca sobre papel. As filmagens foram feitas todas nas ruas das regiões mais modernas de Paris. E quase não tivemos iluminação no filme. 

E no final também temos mais uma referência no filme, desta vez de caráter bíblico, quando Lemmy Caution diz para Natasha não olhar para trás (remetendo ao caso de Sodoma e Gomorra). Ela pede a ajuda do mesmo para se lembrar das palavras, mas Caution responde que ela tem que descobrir quais são as palavras por ela mesma. 

E daí ela diz 'eu amo você' para Lemmy Caution, conquistando, assim, a sua liberdade, por meio da Poesia e da Linguagem, e superando a situação de ignorância na qual vivera até aquele momento.  

Merece destaque, também, a bela trilha sonora do filme, de autoria de Paul Misraki, que realça os momentos de tensão, de romance e de conflitos que temos no mesmo. Ela é composta de cinco momentos, incluindo 'La ville inhumaine', 'Valse triste', 'Thème d'amour', 'La ville détraquée' e 'Alphaville'. 

Assim, o 'Thème d'amour' toca, é claro, quando Lemmy Caution e Natasha estão apaixonados, enquanto que 'La ville détraquée' (A cidade perturbada) é executada quando o 'Alpha 60' entra em colapso e os habitantes da cidade ficam completamente desnorteados. A música reflete perfeitamente esses momentos.

Lemmy Caution conduz Natasha para fora de Alphaville depois que o 'Alpha 60' entrou em colapso.

Conclusão!

'Alphaville' é uma obra-prima de Godard, sendo um filme extremamente inovador, no qual temos a presença de vários gêneros cinematográficos bastante populares: Ficção Científica, Policial Noir, Romance, Western, Espionagem e Expressionismo Alemão, bem como também de História em Quadrinhos.

O filme retrata criticamente uma sociedade altamente avançada que é, ao mesmo tempo, contemporânea e futurista. Assim, Godard mostrou uma sociedade futurista no presente, como se fosse um documentário. Essa mistura de documentário e ficção sempre esteve presente na obra de Godard.

Desta maneira, a simples (e boba...) história policial e de espionagem do filme acaba se tornando apenas o ponto de partida para toda uma reflexão sobre Arte, História, Ciência, Civilização, Humanidade, Tecnologia, enfim, uma série de temas complexos que interessavam e atormentavam Godard e que se sustentava em inúmeras e consagradas obras de arte, filosóficas e científicas.

'Alphaville' se tornou uma obra extremamente influente. 

O formato circular de 'Alpha 60', o computador dotado de inteligência artificial, criado por Leonard von Braun, e que controla tudo em 'Alphaville' influenciou Kubrick, em '2001 - Uma Odisseia no Espaço', pois o computador 'HAL 9000' também tem o mesmo formato circular, embora possua uma natureza distinta, pois 'HAL 9000', diferente de 'Alpha 60', possui emoções.

Lemmy Caution e Natasha vão embora juntos de Alphaville, em um dos raros filmes de Godard com um final feliz. Ela consegue se libertar quando relembra e passar a usar palavras que eram proibidas em Alphaville. Assim, ela finalmente se liberta por meio do uso e domínio da Linguagem.

E a ideia de que a tecnologia controla as nossas vidas e que somos sufocados por ela é um aspecto central do Cyberpunk, no qual também temos uma mescla de Filme Noir, Ficção Científica, Sociedade Tecnológica e Futuro Distópico, uma mistura essa da qual 'Alphaville' foi o filme pioneiro. Logo, pode-se dizer que Godard foi o criador do Cyberpunk, mesmo que não fosse este o seu objetivo.

E 'Alphaville' também foi a principal fonte de influência sobre 'Blade Runner' (1982), o clássico filme Neo-noir futurista de ficção científica que passou a ser cultuado e que também passou a exercer uma significativa influência sobre a Ficção Científica produzida desde então, principalmente em função de um belíssimo elemento visual que foi, inspirado em 'Metropolis' e em 'Alphaville'. E muitas cenas, ideias e símbolos que estão presentes em 'Alphaville', também estão em 'Blade Runner'. 

Outro aspecto importante de 'Alphaville' é que, no filme, Godard mesclou gêneros cinematográficos que já tinham, há muito tempo, passado do seu período áureo e não atraíam mais o público, tal como acontecia com os Westerns, o Film Policial Noir, a Ficção Científica (que era considerada como um gênero de pequena importância), o Romance e o Expressionismo Alemão. E as Histórias em Quadrinhos não eram tidas como algo sério.

Assim, com 'Alphaville', Godarda nadou contra a corrente dominante, algo que sempre fez em sua longa e gloriosa carreira. 

'Alphaville' conseguiu um significativo sucesso comercial na França, onde foi visto por cerca de 150 mil pessoas, e também foi muito bem recebido pela crítica e por intelectuais, que passaram a reconhecer em Godard a condição de um grande artista. E 'Alphaville' conquistou, em 1965, o Urso de Ouro (Melhor Filme) no Festival de Cinema de Berlim.

Logo, não há como negar a importância de uma obra tão relevante e influente quanto 'Alphaville'. 


Informações Adicionais!

Título: Alphaville, Une Étrange Aventure de Lemmy Caution;

Diretor: Jean-Luc Godard;

Roteiro: Jean-Luc Godard;

Ano de Produção: 1965;

Gênero: Ficção Científica; Policial Noir; Romance; Expressionismo Alemão; Western; Espionagem; História em Quadrinhos;

Duração: 99 minutos;

País de Produção: França;

Música: Paul Misraki;

Fotografia: Raoul Coutard;

Montagem: Jean-Luc Godard e Agnès Guillemot;

Elenco: Eddie Constantine (Lemmy Caution/Ivan Johnson); Anna Karina (Natasha von Braun); Akim Tamiroff (Henri Dickson); Laszló Szabó (Engenheiro-Chefe); Howard Vernon (Leonard Nosferatu/von Braun); Jean-Louis Comolli (Prof. Jeckell); Jean-André Fieschi (Prof. Heckell); Christa Lang (Primeira Sedutora de Terceira Classe); Valérie Boisgel (Segunda Sedutora de Terceira Classe);

Prêmios: Urso de Ouro no Festival de Cinema de Berlim de 1965.

'Blade Runner' sofreu uma grande influência de 'Alphaville', como no fato de misturar Ficção Científica com Filme Noir, em retratar uma distopia futurista, na existência de formas de vida artificial inteligentes e na existência de um casal romântico que protagoniza o filme e, até, no monólogo final que é feito por uma forma de vida artificial (Alpha 60 e Roy Batty).

Links:

Trailer de 'Alphaville':

https://www.youtube.com/watch?v=CzaATgGHmy0 

'Alphaville' - O filme de Godard que antecipou o Cyberpunk:

https://cinemaclassicecult.blogspot.com/2021/02/alphaville-o-filme-de-godard-que.html

As 25 semelhanças entre 'Alphaville' e 'Blade Runner': 

https://cinemaclassicecult.blogspot.com/2021/01/blade-runner-e-alphaville-conheca-25.html

Alphaville - em espanhol:
https://www.youtube.com/watch?v=qdpViZ3iIKw

Nossos Silêncios, Nossas Palavras (poesia visual do filme):
https://www.youtube.com/watch?v=hgd-pJr5lnI

Colin MacCabe faz uma introdução sobre o filme:
https://www.youtube.com/watch?v=R-nmJYVRCGw

Compreendendo 'Alphaville' (por Zeos Greene e Paige Dahlke):
https://www.youtube.com/watch?v=g-nY6l7PhEI&t=7s

Seres humanos serão derrotados por Inteligências Artificiais:

https://canaltech.com.br/inovacao/humanos-serao-derrotados-por-inteligencia-artificial-aposta-vencedor-do-nobel-185361/

André Breton - Manifesto Surrealista (1924):
file:///C:/Users/given/Downloads/ma000015(1).pdf

Livro de Mario Alves Coutinho, no qual o autor analisa inúmeros filmes clássicos da trajetória de Godard, começando com 'Acossado' (1959), passando por 'Le Mépris' (1963), 'Alphaville' (1965), 'Pierrot le fou' (1965) e chegando até o filme mais recente, que é 'Imagem e Palavra' (2018).

'Alphaville: o Surrealismo do perigo e da salvação:

https://estadodaarte.estadao.com.br/alphaville-surrealismo-perigo-salvacao/

Trilha Sonora de 'Alphaville' (de Paul Misraki): 

https://www.youtube.com/playlist?list=OLAK5uy_kebaNolTC5ChTfkSAqUkIWAQl1ldTiiUI

Poema de Baudelaire 'Au lecteur': 

https://www.bonjourpoesie.fr/lesgrandsclassiques/Poemes/charles_baudelaire/au_lecteur

O crítico e o poeta Baudelaire:

https://revistacult.uol.com.br/home/o-critico-e-o-poeta-baudelaire/

Godard completo - Entrevista com Mário Alves Coutinho:

https://domtotal.com/blogs/carlosavila/858/2015/10/godard-completo/

Memórias - Surrealismo foi revelado há 90 anos:

https://www.esquerda.net/artigo/memorias-o-surrealismo-foi-revelado-ha-90-anos/38600

 Escuridão, Luzes, Círculos e Linhas em 'Alphaville':

http://godardmontage.blogspot.com/2010/09/darkness-and-light-circles-lines-and.html

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