'One Plus One'/'Sympathy for the Devil': Godard filmou os Stones, divulgou os ideais dos Black Panthers e mostrou os limites e contradições da Contracultura e da Revolução nos anos 1960!

'One Plus One'/'Sympathy for the Devil': Godard filmou os Stones, divulgou os ideais dos Black Panthers e mostrou os limites e contradições da Contracultura e da Revolução nos anos 1960! - Marcos Doniseti!

Godard e Mick Jagger conversam animadamente durante as sessões de gravação do filme e da música 'Sympathy for the Devil', que se tornou um dos maiores sucessos e um dos grandes clássicos do grupo, sendo que é sempre executada nos shows. Ela faz parte do 'Beggar's Banquet', álbum que elevou os Stones a um novo patamar no cenário do Rock e da Contracultura da época.

A produção de 'One Plus One'/'Sympathy for the Devil'!

Resumo!

Nesse texto procurarei demonstrar que, neste filme, Godard mostrou os limites e contradições dos envolvidos neste processo revolucionário, que se alastrou pelo mundo em 1968, ano em que o filme foi produzido, e no qual ele também deixa claro o quanto ainda estava em dúvida a respeito de qual seria o seu papel, e dos intelectuais revolucionários, neste momento em que grandes transformações estavam acontecendo no mundo todo.

Este filme foi realizado por Godard, em Junho e, após uma interrupção, em Agosto de 1968, no Reino Unido, e no mesmo ele usa da técnica de colagem, que foi criada pelos Cubistas (Picasso, Braque, Cézanne...).

O filme é dividido em vários segmentos e momentos, aparentemente desconectados, mas que estão relacionados entre si e mostram um panorama da Contracultura ocidental do período, bem como a visão de Godard sobre a situação daquele período, no qual defende uma aliança com os 'Black Panthers' e o projeto revolucionário deste.

Assim, Godard mostra o processo de composição do arranjo da música título, dos 'The Rolling Stones', que se encontravam no auge da criatividade, sendo que a mesma faz parte do excepcional álbum 'Beggar's Banquet' (1968), que é considerado o primeiro álbum clássico dos Stones e que deu início ao período mais criativo do grupo, que vai durar até a obra-prima 'Exile on Main Street' (1972).

E o ano de 1968 também foi um ano em que os The Rolling Stones adotaram um tom muito mais político em suas músicas e atitudes. Eles tinham sido vítimas, durante vários anos, de perseguição policial e judicial, principalmente em função do seu envolvimento com o uso de drogas. E em 1968 eles meio que perderam a paciência com isso.

Godard e os Stones tiveram um excelente relacionamento durante as filmagens. Essa foto ilustra bem o clima que existiu entre o grupo e o cineasta.

Daí, em Março de 1968, Jagger participou de uma manifestação, em Londres, contra a Guerra do Vietnã e viu pessoalmente a brutal repressão policial que se utilizou contra os manifestantes.
 
Foi justamente em função disso que Jagger compôs a música 'Street Fighting Man', que se tornou um clássico dos Stones e na qual ele defende o direito das pessoas de se manifestarem, enquanto condena a passividade da maior parte dos britânicos contra essa violência e, claro, também critica a repressão policial.
 
Uma das principais ideias de Godard que estão presentes no filme era a de mostrar que uma obra de arte é fruto de um trabalho em construção, que é constituído de várias tentativas, misturando erros e acertos. Aliás, a própria criação do arranjo da música título mostra que ele começou como uma canção folk, evoluiu para um rock e, depois, finalizou como uma canção repleta de ritmos e percussão de origem afro-americana.
 
Assim, Godard mostra Mick Jagger soltando um 'Oh, shit...' sempre que algo dava errado ou então o mostra chamando a atenção do baterista Charlie Watts para que o mesmo toque com mais vivacidade e para que espere o momento correto de entrar na música. Assim, Godard mostra que mesmos os grandes músicos, pintores, cineastas também erram, incluindo ele próprio.
 
Godard e os Stones tiveram um excelente entendimento durante as filmagens, com ambos (Godard e os Stones) respeitando a liberdade do outro. Assim, logo que Godard chegou para as sessões de gravação (no London's Olympic Studios), ele e Mick Jagger tiveram uma conversa na qual combinaram que ambos teriam liberdade para fazer os seus trabalhos e que nenhum deles iria interferir no que o outro, grupo e cineasta, estavam fazendo. 
 
Livro 'O Mestre e Margarida', do escritor russo Mikhail Bulgákov, que Mick Jagger ganhou de presente de Marianne Faithfull, que recomendou a sua leitura para o seu então namorado. Jagger gostou tanto que escreveu 'Sympathy for the Devil' baseado no livro. Marianne vinha de uma família de origem aristocrática e possuía uma refinada formação intelectual.

Isso deu muito certo e o resultado se vê no filme, em ambas as versões do mesmo (a de Godard e a dos produtores), sendo que um dos melhores momentos do mesmo ocorre quando Jagger olha várias vezes na direção da câmera, ou seja, de Godard, e em um deles o vocalista pergunta 'Ça va?' (Como vai?), cumprimentando ao cineasta francês.
 
 
Aliás, Jagger e Richards não escondem a sua imensa 'Satisfaction' em serem filmados por aquele que era, inegavelmente, o maior cineasta do mundo no final dos anos 1960 e que tinha uma intensa atuação política já há muitos anos, pois Godard sempre fez filmes com muito teor político e social. 
 
Isso é comprovado por filmes como 'Le Petit Soldat', de 1960, sobre a Guerra da Argélia e que foi censurado pelo governo francês (foi finalizado em meados de 1960 e liberado para exibição pública apenas no final de janeiro de 1963), 'Masculino Feminino' (1966), sobre a juventude francesa do período, que misturava consumismo e marxismo, e 'A Chinesa' (1967), sobre jovens estudantes maoístas.
 
Godard sempre foi muito politizado e todos os seus filmes tem comentários políticos e sociais, mas a partir de 1966 ele estava produzindo e atuando ainda mais intensamente e de forma mais ideológica, marcado pela crescente influência do maoísmo sobre as suas ideias e posturas.
 
Em vários momentos os Stones encaram a câmera de Godard de forma sorridente e altiva. Os Stones disseram, na época, que conheciam e admiravam o trabalho de Godard, o que ajudou no relacionamento com o genial cineasta francês, que fazia questão de ter liberdade para trabalhar. E isso não faltou para ele.
 
Mick Jagger também disse, em entrevista para a revista 'Rolling Stone', realizada em Dezembro de 1995, que o grupo teve muita sorte de trabalhar com um cineasta tão interessante quando Godard.
 
Anne Wiazemsky, Jean-Pierre Léaud e Juliet Berto em cena de 'A Chinesa' (1967).

Godard era conhecido por sua politização, mas a diferença é que, a partir de 1965 ele irá radicalizar cada vez mais a sua postura política e ideológica.
 
Assim, depois de vários filmes extremamente críticos sobre o Estado ('Alphaville'; 1965), a Sociedade moderna ('Pierrot le fou'; 1965), as Esquerdas francesas ('Masculino Feminino', 1966; 'Made in U.S.A.'; 1966) e sobre o Capitalismo ('2 ou 3 Coisas Que Eu Sei Sobre Ela'; 1966), Godard passará a se aproximar, em um primeiro momento, e a seguir, posteriormente, as ideias revolucionárias e radicais do Maoísmo.
 
Essas mudanças terão um grande impacto tanto sobre a sua trajetória como cineasta, quanto sobre a sua vida particular, levando-o a repensar tudo em sua vida, incluindo a sua visão de mundo, o tipo de cinema que criava, suas amizades, reinventando-se por completo em um curto período de tempo (1965-1968).
 
Dessas mudanças irá emergir um cineasta que passou a rejeitar a assinatura pessoal de seus filmes, passando a assiná-los com a expressão Grupo Dziga Vertov, fazendo isso, especialmente, depois que começou a trabalhar junto com Jean-Henri Roger e Jean-Pierre Gorin, dois maoístas franceses.
 
Inclusive, para fazer o 'La Chinoise', Godard contou com a colaboração de Anne Wiazemsky, que estudava na Universidade de Nanterre (a mesma de Daniel Cohn-Bendit) e conhecia vários estudantes maoístas.
 
Godard também consultou vários jovens maoístas, como foram os casos de Jean-Pierre Gorin e de Jean-Henri Roger, com os quais ele irá trocar muitas ideias e com quem acabará criando, logo após o Maio de 68, o 'Grupo Dziga Vertov'.
 
Brian Jones (de costas) Mick Jagger (no centro) e Keith Richards (ao fundo). Em 1968, a dupla Mick-Keith já havia assumido o controle do grupo, pois Brian estava cada vez mais distante dos demais integrantes.
 
Os segmentos do filme!

É bom que fique claro que o filme ao qual eu assisti e que estou comentando é o 'Sympathy for the Devil', que é a versão dos produtores e não a de Godard, que se chama 'One Plus One'.
 
Na versão de Godard os Stones aparecem bem menos tempo do que os jovens afro-britânicos que leem e fazem discursos, em um ferro velho, e que são baseados e inspirados nas ideias dos Black Panthers, principalmente de Eldridge Cleaver. A versão de Godard tem 11 minutos a mais.
 
Além disso, na versão dos produtores nós temos a mudança do nome do filme, a conclusão do arranjo da música título e a criação de um videoclip no qual a música é tocada na íntegra. Godard ficou indignado e denunciou as mudanças em entrevistas, chegando a esmurrar o produtor do filme (Iain Quarrier) no Festival de Cinema de Londres, em novembro de 1968..
 
Também temos a leitura de textos de outros líderes revolucionários do então chamado Terceiro Mundo (Amílcar Cabral, Patrice Lumumba). Eldridge Cleaver, inclusive, será entrevistado por Godard naquele mesmo ano de 1968, quando foi aos EUA fazer um filme junto com D.A. Pennebaker e Richard Leacock.

O filme começa com os Stones iniciando os ensaios para desenvolver o arranjo da música título e neste começo vemos claramente que a criação do mesmo ficava a cargo de Jagger, Richards e Jones. Wyman e Watts apenas recebiam instruções e orientações dos três que comandavam o grupo criativamente. 

Aliás, nesta época, o grupo já estava sob a liderança de Jagger e Richards, que eram os compositores dos Stones. Esta sequência inicial dura pouco mais de dez minutos. Somando tudo, a participação dos Stones soma 45 minutos, o que representa quase metade do filme, que tem 97 minutos.  

Também é possível perceber, durante o filme, a progressiva perda de espaço de Brian Jones, que foi o líder da banda por vários anos, nos Stones. Nas primeiras cenas ele participa intensamente, tocando junto com Jagger e Richards, para tentar fazer o arranjo da música, mas quanto mais se aproxima o final do filme ele vai aparecendo cada vez menos, o que reflete o seu progressivo afastamento do grupo. 
 
Apesar disso, neste filme, ele ainda tem uma significativa participação. Porém, mais para o final do filme, quando os Stones já estão ensaiando uma nova música, o genial multi-instrumentista Brian Jones já nem aparece mais, pois ele não estava presente no estúdio naquele momento.
 
Bobby Seale e Huey Newton criaram o 'Black Panther Party' em 1968.

Embora ele fosse um exímio instrumentista e tivesse grande facilidade para aprender a dominar novos instrumentos (ele possuía o chamado 'ouvido absoluto'), Jones não compunha e, com isso, ele foi perdendo espaço, até que Jagger e Richards passaram a liderar o grupo, o que fica bem claro no filme. 

E também percebe-se o quanto a música original foi sendo modificada, pois ela começa como uma balada Folk acústica 'a la Bob Dylan', evolui para um rock na linha dos Stones e termina como uma canção com atabaques de origem africana, o que foi resultado da viagem que Jagger e Richards fizeram ao Brasil no inicio de 1968, quando ficaram vagando entre o Rio de Janeiro e a Bahia durante cerca de um mês. 

Durante a estadia deles aqui no Brasil, Jagger frequentou terreiros de candomblé e gostou muito da batida dos ritmos musicais de origem africana. Mick e Keith vieram juntos, para o Brasil, com as suas respectivas namoradas, que eram as belas Marianne Faithfull e Anita Pallenberg, respectivamente. 

Aliás, é bom esclarecer que foi de Marianne a sugestão para que Jagger lesse o livro 'O Mestre e Margarida', do escritor russo Mikhail Bulgákov. E Jagger gostou tanto do livro que escreveu 'Sympathy for the Devil' baseado na história do mesmo. 

Além dos Stones, o Pearl Jam ('Pilate') e o Franz Ferdinand ('Love and Destroy') também escreveram músicas que foram baseadas no clássico livro de Bulgákov. 
 
O livro de Bulgákov mostra a devastação do planeta, o que ocorre em função da criação da própria civilização humana, mas neste processo temos uma pequena ajuda e participação do Coisa Ruim (o Devil...), que seria um personagem oculto da trágica história da humanidade.
 
Atores britânicos repetem e gravam discursos de conteúdo revolucionário e que eram baseados em textos e livros de autoria de membros ou simpatizantes dos Black Panthers, como Eldridge Cleaver e Leroi Jones (depois mudou seu nome para Amiri Baraka).

Aliás, não sei se Godard chegou a ler o livro de Bulgákov, mas em seu filme anterior 'Weekend' (1967), que encerrou a fase 'Nouvelle Vague' da sua carreira, ele mostrava justamente como a Civilização Industrial, em sua versão capitalista avançada, estimula um consumismo desenfreado que tinha como resultado a devastação da natureza e o fim da própria Civilização.
 
No filme ele também mostra como essa civilização, essencialmente materialista, destruía as relações sociais marcadas pela solidariedade, criando pessoas egoístas, solitárias e desonestas. 

Obs1: Qualquer semelhança com a atual situação do planeta e da humanidade não é mera coincidência, pois Godard sempre conseguiu enxergar mais longe e melhor do que outros. Como disse Jean-Pierre Gorin, Godard é um sismógrafo que antecipa os terremotos que estão para acontecer na sociedade. 

E neste filme as cenas filmadas por Godard no ferro-velho também mostram o mesmo tipo de situação, o que deixa claro a presença da influência de 'Weekend' sobre 'One Plus One'/'Sympathy for the Devil'. Logo, há uma clara conexão entre estes dois filmes de Godard, o livro de Bulgákov e a clássica canção dos Stones. Eles se combinam perfeitamente pois tratam do colapso da Civilização por uma humanidade corrompida e decadente. 

Godard alterna vários momentos e situações durante o filme, com cenas que estão separadas no tempo e no espaço, mas que estão conectadas entre si no plano das ideias, como as da rebeldia e contestação ao sistema político, econômico, social e racial existente. 
 
E existe também uma conexão entre os vários segmentos: Rolling Stones, Black Panthers, entrevista com Eve Democracy (interpretada por Anne Wiazemsky, a jovem esposa de Godard), a mesma Eve Democracy grafitando em diferentes locais de Londres, o romance político e pornográfico que é lido por Sean Lynch, a cena na livraria que pertence a um fascista admirador de Hitler (que lê trechos do 'Mein Kampf') e a sequência final na praia, 'sob as pedras', ou seja, os Stones. 
 
Mick Jagger, Marianne Faithfull, Anita Pallenberg e Keith Richards estiveram no Brasil, de férias, no início de 1968. Jagger foi influenciado pelos ritmos musicais com os quais tomou contato por aqui, o que fica claro no arranjo de 'Sympathy for the Devil'. 

Todos estes segmentos e momentos não tem nada de desconexos e formam, sim, um todo lógico e coerente que mostra a visão de Godard sobre aquele momento histórico, quando temos uma Civilização autodestrutiva que está devastando tudo (sociedade, natureza, relações pessoais), bem como temos crescentes conflitos políticos e sociais que também caracterizam esse processo. 
 
Tudo isso é que levou Godard a concluir que existia a necessidade de se promover uma Revolução que criasse uma nova sociedade, com outros valores, outra forma das pessoas se relacionarem, o que exigia também a criação de um novo tipo de ser humano, solidário com os seus semelhantes. 

Porém, ao mesmo tempo, ele beira o pessimismo em sua mensagem final, o que fica mais do que evidente na sequência da praia, quando uma guerrilheira (Eve Democracy) é assassinada quando tenta se aliar aos 'Black Panthers' para levar adiante a Revolução que Godard tanto desejava e defendia. Ele demonstra uma dúvida e um certo ceticismo sobre a viabilidade desse projeto revolucionário.

Assim, além das cenas no ferro-velho com os militantes dos 'Black Panthers', que repetem e gravam discursos e entrevistas de caráter revolucionário, e daquelas que mostram os Stones compondo o arranjo da sua canção, também temos cenas em que Anne Wiazemsky/Eve Democracy sai grafitando por Londres, escrevendo em muros, fachadas de lojas, veículos, vidraças, calçadas e portões várias frases e expressões como 'Freudemocracy', 'Cinemarxism' e 'Sovietcongue'. 

Tony Richmond, responsável pela fotografia, disse que o filme foi feito sem um roteiro definido e que ele, Godard e Anne saiam por Londres e paravam em vários lugares, esperando dentro do carro pelo melhor momento para que ela pudesse fazer as pichações. Para sorte de todos, a Polícia inglesa nunca os viu fazendo isso (apenas cidadãos comuns, que não os denunciaram) e, assim, eles nunca foram presos.  
 
No início do filme fica claro que Brian, Keith e Mick são os responsáveis pela parte criativa no trabalho do grupo. Brian não era compositor, mas tinha um fácil e grande domínio de inúmeros instrumentos. Wyman e Watts seguiam as orientações que recebiam de Mick e Keith.

Em outra sequência a própria Anne (ou melhor, Eve Democracy) responde a uma série de perguntas de um repórter de TV, que a acompanha com a sua equipe em meio a um bosque. Assim, enquanto caminha pelo bosque, Anne responde a todas as questões sempre de forma monossilábica, com meros 'Sim' ou 'Não'. 
 
Nesta sequência, Godard, fora da cena, fazia gestos, usando o seu chapéu, indicando para Anne o que deveria responder. As perguntas que Godard fez foram retiradas de uma entrevista feita com Norman Mailer e que havia sido publicada pela revista 'Playboy' em Janeiro de 1968.

E todas as perguntas estão, de alguma forma, relacionadas com o contexto político, social e cultural do período. Desta maneira, Eve Democracy é questionada sobre o uso de drogas (maconha, LSD), sobre os Black Panthers, o papel da Mídia, a função de um intelectual revolucionário, sobre a Guerra do Vietnã, Arte, Sexo, entre outras questões. Enfim, eram todas as questões com as quais Godard se preocupava e refletia naquele momento histórico.

E no filme também temos um 'romance político e pornográfico', de autoria do próprio Godard, que é narrado pelo ator britânico Sean Lynch ao longo do filme e cujos protagonistas são figuras de destaque daquele período histórico: Brejnev, Kossygin, Robert McNamara, Lyndon Jonhson, Fidel Castro, Alexander Dubcek, Papa Paulo VI, De Gaulle, Henry Kissinger, Kossygin, Mao Tse-Tung, Tito, Trujillo, Elvis, entre outros.
 
Neste romance 'político e pornográfico', de autoria de Godard, nós também temos referências ao filme 'Barbarella', o qual teve a participação de Anita Pallenberg que, em 1968, era a namorada de Keith Richards, bem como a situações daquele período, como a Guerra Fria e os conflitos entre os governos da França e dos EUA em torno da questão do padrão ouro do Dólar. 
 
E no romance godardiano todas essas lideranças, personalidades e situações são retratadas de forma crítica e satírica.
 
A presença de grafites é bastante significativa nos filmes de Godard que incorporou as novas formas de arte em sua obra. E o conteúdo deles estava ligado ao contexto histórico. Assim, quem quiser pesquisar e conhecer o que aconteceu nos anos 1960 terá que, obrigatoriamente, assistir aos filmes que Godard fez naquela época.

Assim, em um determinado momento da leitura, feita por Sean Lynch, temos o seguinte trecho: "'E então?', questiona De Gaulle. 'E então, o que?', pergunta Kissinger. E De Gaulle pergunta 'Cadê o ouro?'...". 
 
O diálogo pode parecer absurdo para quem não está bem informado sobre o período, mas não é, pois se refere à questão relacionada ao padrão ouro do dólar que vigorava na época e que gerou um crescente conflito entre os governos da França e dos EUA.

Explicando: A quantidade de dólares que circulava na economia mundial estava relacionada à quantidade de ouro que o Federal Reserve (o Banco Central dos EUA, que é uma entidade privada) possuía em suas reservas. Se a quantidade de dólares em circulação crescia, então a quantidade de ouro nas reservas do FED também teria que aumentar. Mas com o crescente envolvimento dos EUA na Guerra do Vietnã isso não acontecia. Os EUA estavam emitindo, assim, dólares sem ter o devido lastro em ouro, o que era uma clara violação do padrão ouro. E quem comprava esses dólares eram, especialmente, os governos da França, Alemanha e Japão. Com medo de sofrer um calote, o presidente Georges Pompidou mandou buscar no FED a quantidade de ouro a que o governo francês tinha direito. E depois os governos da Alemanha e Japão fizeram o mesmo. Isso explica o diálogo que temos, entre Kissinger e De Gaulle, no hilário romance político pornográfico do filme. 

Algumas frases irônicas também estão presentes no filme, tal como 'Se você casa com Kruschov, será a mulher de um comedor de trigo', o que é uma referência à origem camponesa do líder que governou a URSS entre 1953-1964.

Em outros momentos nós vemos um grupo de atores fazendo a leitura de textos que eram, de alguma forma, ligados aos 'Black Panthers' e ao movimento 'Black Power', de autores como Eldridge Cleaver e Leroi Jones (que mudou o seu nome para Amiri Baraka após o assassinato de Malcolm X). 
 
Anne Wiazemsky interpreta Eve Democracy, que escreve grafites por toda Londres e é entrevistada, respondendo perguntas sobre questões da época (Arte, Cultura, Drogas, Sexo, Guerra do Vietnã...) e sempre de forma monossilábica.

As leituras são feitas em um ferro-velho no qual temos inúmeros carros que estão abandonados e destruídos e no qual os 'Black Panthers' estão armados com inúmeros fuzis, o que é uma forma nada sutil de Godard de mostrar que desejava a destruição daquela sociedade burguesa e fortemente marcada por um consumismo (auto) destrutivo, por imensas desigualdades sociais, pelo Imperialismo e por um racismo descarado. 

No local vemos inúmeros grafites contendo nomes de vários líderes revolucionários, tais como Patrice (Lumumba), Amílcar (Cabral), Malcolm X e Michael X e também grafites escritos CIA, FBI (serviço secreto e policial do governo dos EUA, respectivamente), bem como de grandes empresas de aviação civil dos EUA (TWA e PANAM).

Enquanto isso, os atores ligados ao movimento 'Black Power'/'Black Panthers' simulam fuzilamentos, estupros, disparam seus fuzis e fazem discursos e concedem entrevistas com um conteúdo marcadamente revolucionário e nos quais eles defendem a luta dos negros contra a sociedade que os discrimina e que os massacra. 

Um dos seus integrantes concede uma entrevista para duas jornalistas de uma revista fictícia, a 'Panther Magazine', e na  mesma ele explica quais são os métodos de luta e os objetivos do movimento 'Black Power'/'Black Panther', deixando claro o seu caráter revolucionário, anticapitalista, socialista e da defesa do orgulho negro. 

É bom ressaltar que os 'Black Panthers' foram uma organização revolucionaria fundada por Bobby Seale e Huey Newton, em Outubro de 1966, que chegou a contar com milhares de membros por todos os EUA. O jornal da organização ('Black Panther') chegou a ter uma circulação de 250.000 exemplares. A organização condenava o Imperialismo, o Capitalismo e a Supremacia Branca ao mesmo tempo. 
 
Pessoa não identificada, Bill Wyman (encoberto), Charlie Watts, Marianne Faifhfull, Brian Jones, Keith Richards e Anita Pallenberg fazem o famoso coro de 'Sympathy for the Devil'. 

Em outro segmento vemos um jovem proprietário de uma pequena livraria, que é assumidamente fascista, e que faz a leitura de trechos do 'Mein Kampf' (de Hitler), enquanto o conteúdo da loja é exposto (revistas pornográficas, livros baratos, etc) e o mesmo atende aos clientes. O proprietário é interpretado por Iain Quarrier, que é um dos produtores do filme. 

De vez em  quando, dois jovens hippies sentados em um canto da pequena livraria gritam palavras de ordem, como 'Viva Mao', 'Paz para o Vietnã', enquanto são estapeados por clientes da loja que fazem a saudação nazista, que é uma forma nada sutil de Godard de mostrar a brutal repressão que os jovens que protestavam contra a Guerra do Vietnã pelo mundo afora sofriam na época. 

Portanto, o filme de Godard mostra os dois lados em conflito naquele período histórico, incluindo as forças progressistas da chamada 'Nova Esquerda' (Rock, Contracultura, Hippies) e os 'Black Panthers', de um lado, bem como o lado fascista da sociedade, que nunca deixou de existir, que é representada pelo proprietário da pequena livraria, ou seja, por um pequeno burguês. 

Essa dualidade tipicamente classista esteve presente em muitos filmes de Godard ('British Sounds', 'One Parallel Movie'...) que foram feitos nesse período maoísta e revolucionário da sua vida.

Obs2: Em inúmeros países mundo afora e em diferentes contextos e momentos históricos a chamada pequena burguesia sempre foi a principal base social dos movimentos Fascistas, Reacionários e de Extrema Direita em geral. Geralmente, ela representa em torno de 60% a  90% dos militantes destes movimentos. Hitler e Mussolini, por exemplo, eram pequenos burgueses.
 
Jagger encara a câmera e logo depois pergunta 'Ça va?' (Como vai?), cumprimentando Godard. Os integrantes do grupo ficaram à vontade para fazer o arranjo da música, enquanto Godard desfrutou de plena liberdade para filmar. Apenas um momento mais íntimo e pessoal entre Keith e Anita Pallenberg é que ele não teve autorização para filmar...

'One Plus One'/'Sympathy for the Devil' foi o último filme realizado por Godard de forma tipicamente autoral e que ainda possui elementos da fase 'Nouvelle Vague', ao mesmo tempo que ele antecipa algumas das características do seu trabalho posterior, como são o Maoísmo e a defesa da Revolução, quando criou o 'Grupo Dziga Vertov' com Jean-Pierre Gorin e mais alguns esquerdistas da época (incluindo maoístas, comunistas tradicionais - leninistas - trotskistas - e anarquistas libertários). 

O 'Grupo Dziga Vertov' foi criado logo após as manifestações do Maio de 68 francês e procurou não apenas fazer filmes políticos, mas fazer filmes politicamente, como disse Godard, ou seja, de uma forma revolucionária, priorizando a criação coletiva. Desta maneira, Godard encerrou o período da Nouvelle Vague, marcada pela defesa do Cinema Autoral, no qual o cineasta controla todo o processo de criação dos filmes.
 
Por que o filme tem dois títulos? 


O filme, na versão de Godard, tem um espaço maior voltado para a difusão das causas e das lutas dos negros, ou afro-americanos como se passou a dizer posteriormente, dos 'Black Panthers', do que na versão dos produtores, que se preocuparam mais em mostrar os The Rolling Stones, pois isso atrairia muito mais público para o filme. 
 
Os produtores (Iain Quarrier e Michael Pearson) disseram, para Godard, que eles tinham que pensar no fato de que havia 10 milhões de adolescentes nos EUA e que o filme tinha custado caro (250.000 Libras). Godard disse que isso era injusto com as lutas dos negros e dos Black Panthers, pois a versão dos produtores os deixavam em segundo plano. 

E porque isso aconteceu? 

Godard disse, em entrevista concedida para a revista Rolling Stone, em 1969, que o seu objetivo com o filme era mostrar que as forças Progressistas dos EUA e da Europa até poderiam apoiar as lutas dos afro-americanos e dos vietnamitas, mas elas não teriam interesse real em participar de um projeto revolucionário.
 
Godard sempre usou de intertítulos para fazer jogos de palavras, recriando as frases originais e mudando o seu significado. Nesta frase, 'O Coração do Ocidente', ele forma a expressão CIA, citando o serviço secreto dos EUA.
 
Com isso, o filme acabou tendo duas versões e dois títulos diferentes, sendo que na versão de Godard ('One Plus One') os Rolling Stones não finalizam a música 'Sympathy for the Devil' e já começam a compor uma nova música, que no filme também fica inacabada, o que está de acordo com a concepção do filme como um todo, que é a ideia de Godard de mostrar que uma obra de arte nunca termina.

Enquanto isso, na versão dos produtores (Iain Quarrier e Michael Pearson) a música 'Sympathy for the Devil' foi concluída e temos a exibição de um vídeo com a versão completa da mesma, o que foi feito sem a concordância de Godard, que entrou em conflito com os produtores naquela época (mas não com os Stones), quando eles exibiram o filme durante o Festival de Cinema de Londres, em 29 de Novembro de 1968.

Godard chegou a ir até o local em que os produtores iriam exibir a sua versão do filme para tentar convencer o público a sair dali e ir para outro lugar, onde iria exibir a sua versão, e não a dos produtores, mas as pessoas preferiram ficar ali mesmo, pois estava chovendo torrencialmente.

Quarrier chegou a subir ao palco para explicar os motivos das mudanças feitas no filme, mas Godard não quis saber de conversa e, nervoso, chegou a dar um soco no rosto do produtor, o que o levou a ser expulso do local.

Assim, Godard fez, em 29 de Novembro de 1968, algo que aconteceria na cerimônia do Oscar de 2022, quando Will Smith subiu ao palco para dar um soco em Chris Rock. Até nisso Godard foi inovador...

A versão de Godard ('One Plus One') estreou na França em 07 de Maio de 1969 e, nos EUA, o mesmo foi lançado em Março de 1970, com as salas de cinema exibindo as duas versões do filme, o que ocorria em dias alternados.

O filme é importante por mostrar e traçar um quadro bastante significativo do momento histórico (político, social, musical, cultural, comportamental) contendo alguns dos principais acontecimentos e símbolos políticos e culturais do período (Rock, Black Panthers, Teatro Político, Guerra do Vietnã, Maoísmo, Hippies, Contracultura) e mostra as limitações e as divisões das lutas do período.

Os clientes da pequena livraria faziam a saudação nazista para o dono, que faz a leitura do 'Mein Kampf', de Hitler, enquanto vende produtos de baixo nível cultural, para o largo consumo do grande público. Os nazistas rebaixavam o nível da comunicação com a população a um patamar básico, para que pudessem ser compreendidos. Na pequena livraria do proprietário fascista vemos uma amostra da subcultura que é consumida pela grande maioria da população: revistas pornográficas, infantis, histórias de detetive e de romantismo barato.

Conclusão! 

Godard alterna vários momentos e situações durante o filme, com cenas de um mesmo segmento que estão separadas no tempo, mas que estão todas, sem dúvida alguma, conectadas entre si. E existe também uma clara conexão entre os vários segmentos, por mais diferentes que eles sejam (eles são muito diferentes...): 

- Os Rolling Stones compondo o arranjo da música; 

- Os Black Panthers no ferro-velho fazendo discursos revolucionários; 

- Entrevista com Eve Democracy sobre temas como Arte, Sexo, Revolução e Drogas; 

- Eve Democracy pichando diferentes locais da cidade com slogans políticos e revolucionários; 

- O romance político e pornográfico, que é narrado por Sean Lynch, que contém ironias e provocações dirigidas aos principais líderes políticos e religiosos da época; 

- A cena na livraria que pertence a um fascista e notório admirador de Hitler; 

- A sequência final na praia, na qual Godard reafirma o seu compromisso com um projeto revolucionário. 

Entendo que todos estes segmentos que formam 'One Plus One'/'Sympathy for the Devil' deixam claro, em seu conjunto, claramente qual era a visão de Godard sobre aquele momento histórico.

No final, Godard mostra os Stones compondo um novo arranjo, para outra música, mesmo sem mostrar a versão final de 'Sympathy for the Devil', pois para ele uma obra de arte nunca termina. Mas os produtores fizeram uma versão do filme na qual a participação dos Stones ficou maior e a música é concluída, o que gerou conflitos com Godard.

Assim, Godard mostra, no filme, que temos uma Civilização destrutiva que está devastando tudo (sociedade, natureza), com crescentes conflitos políticos e sociais, e que existia a necessidade de se promover uma Revolução que criasse uma nova sociedade, com outros valores, característica e um novo modelo de ser humano. 
 
Como afirmou o próprio Godard, durante o verão de 68: "É preciso desistir de tudo. É preciso mudar a vida... Temos que mudar completamente a você mesmo, e isso é muito difícil".

Porém, ao mesmo tempo, o mesmo filme no qual Godard defende, claramente, uma solução Revolucionária para a crise da Civilização que já estava, na sua visão, em um estágio terminal, ele não deixa de manifestar as suas dúvidas sobre a viabilidade desse projeto e que era, também, um desejo seu. 

Isso fica mais do que evidente na sequência final da praia ('Sob as pedras - os Stones - da praia'...), quando uma guerrilheira (Eve Democracy) e um 'Black Panther', que partiram para a luta armada, são assassinados, depois que tentaram levar adiante a Revolução que Godard tanto defendia e desejava.

Assim, Godard acaba mostrando os limites e impasses daquilo que via como solução e apontava para um final pessimista, no qual os revolucionários são derrotados. E o que sobra para Eve Democracy, senão ser levantada por um guindaste no qual temos uma câmera?
 
Eve Democracy sai por toda a cidade de Londres fazendo pichações em muros, portões, vidros, veículos, calçadas. As frases tinham um tom provocativo ou revolucionário. Aqui ela escreve 'Freudemocracy', misturando as expressões Freud, Fraude e Democracia em apenas uma. Assim, Godard misturava palavras e criava uma nova, com um novo significado. Godard entendia que a Democracia não passava de uma fraude.

Seria essa uma maneira de Godard reconhecer de que ele, propriamente dito, não poderia ser um revolucionário, tal como desejava, mas que poderia colocar o seu talento e criatividade de cineasta a serviço de um projeto de Revolução?

Outra interpretação possível para a cena final é que ela seria uma maneira de Godard dizer que ele estava disposto a abandonar o seu trabalho como cineasta, que seria sacrificado, em favor de um projeto revolucionário.

A sequência final parece apontar para aquele que era o dilema de Godard neste filme e neste momento da sua vida: Abandonar o Cinema (e a condição de intelectual) em favor da Revolução ou continuar como um Cineasta/Intelectual (que é o que ele era, afinal), mas comprometido com um projeto Revolucionário?

Entendo que Godard irá resolver esse dilema depois que terminou de filmar 'One Plus One'/'Sympathy for the Devil' quando, junto com Jean-Pierre Gorin e mais alguns esquerdistas revolucionários, criou o 'Grupo Dziga Vertov', no qual combinou o seu talento como cineasta com um compromisso claramente revolucionário.

E quando participa do 'Grupo Dziga Vertov', Godard levou adiante o mais radical projeto de compromisso político e intelectual com um projeto revolucionário que um cineasta já havia realizado e que, para tentar viabilizar o mesmo, sacrificou a sua trajetória como tal e, até mesmo, a sua vida pessoal.
 
Com isso, o seu compromisso revolucionário o levou até mesmo, no fim das contas, a inviabilizar seu casamento com a mulher que amava (Anne Wiazemsky).
 
Mick Jagger canta 'Sympathy for the Devil', música de sua autoria e que foi inspirada em um livro do escritor russo Mikhail Bulgákov ('O Mestre e Margarida'). Em entrevista ele disse que foi de Keith Richards a ideia de incluir uma batida de tom africano, com o uso de atabaques e maracas, na canção. E isso combinava com a defesa que Godard fazia do ideário dos Black Panthers.

Godard mostra na sequência final deste filme que ele até poderia ser derrotado, tal como Eve Democracy e o Black Panther o foram em 'One Plus One'/'Sympathy for the Devil', mas que ele não fugiria da luta. E a presença de duas bandeiras, uma vermelha e outra preta, simboliza isso.

A bandeira vermelha é um tradicional símbolo dos movimentos de Esquerda e da Revolução Socialista e vários filmes de Godard, nos anos seguintes, seriam encerrados com a mesma ('British Sounds', 'Pravda'). E a bandeira preta eu vejo como sendo um símbolo de luto, de uma possível derrota que poderia vir a ocorrer. 
 
Ou então, como afirma Richard Brody na biografia que escreveu de Godard, a cor negra refere-se ao Anarquismo, enquanto a cor vermelha está ligada ao Comunismo.
 
Assim, Godard defenderia, nesta sequência, a união das Esquerdas, entre os grupos Anarquistas e os demais (Maoístas, Leninistas, Trotskistas...), que é o que havia acontecido, momentaneamente, durante o Maio de 68 francês. Godard tentará promover essa unidade quando da criação, junto com Gorin, do 'Grupo Dziga Vertov'.
 
Outra possibilidade é que a bandeira negra refira-se ao Fascismo italiano, cujos integrantes usavam camisas negras. Assim, Godard estaria dizendo que a luta revolucionária implicava lutar contra as forças políticas globais que ele identificava com o Fascismo nessa época.
 
Um exemplo disso é que, em um determinado momento, Eve Democracy picha 'US (United States) = Suástica', identificando o Imperialismo dos EUA com o Nazismo. E também temos o jovem proprietário da livraria, que faz a leitura de trechos do 'Mein Kampf', de Hitler, mostrando o respaldo da pequena burguesia ao Fascismo, característica presente em todos os movimentos de Extrema Direita mundo afora. 

Godard, porém, assume o seu compromisso com um projeto de Revolução Socialista e deixa claro que irá lutar até o fim pelo mesmo, independente de qual venha a ser o resultado desta escolha, tanto que um guerrilheiro 'Black Panther' faz uma saudação para a assassinada Eve Democracy quando ela é levantada pelo guindaste. 

E quando ficou claro, alguns anos depois, que a Revolução pela qual ele tinha lutado havia fracassado e o 'Grupo Dziga Vertov' chegou ao fim, Godard não deixou de reconhecer o fato e tampouco de mostrar a sua tristeza e melancolia, bem como a solidão e depressão na qual mergulhou, em função deste resultado, o que ficou claro no filme 'Numéro Deux' (1975), dirigido por ele e cujo roteiro foi escrito junto com Anne-Marie Miéville.
 
O integrante dos Black Panthers concede uma entrevista na qual explica os métodos e objetivos do movimento. Atrás, vemos um grafite escrito 'Malcolm X', um dos principais lideres do movimento de defesa dos direitos dos afro-americanos dos anos 1960 e que foi assassinado em 1965.

'Numéro Deux' (1975) foi o primeiro filme que Godard fez depois do fim do 'Grupo Dziga Vertov' e após o fracasso daqueles lindos sonhos revolucionários dos anos 1960 e que estão presentes neste belo filme que é 'One Plus One'/'Sympathy for the Devil'.

Muitos outros artistas e lideranças da época assumiram um compromisso com a ideia de Revolução e não sobreviveram, como foram os casos de grandes e jovens talentos da época, como Alan Wilson (vocalista do Canned Heat), Jimi Hendrix, Brian Jones, Jim Morrison, Janis Joplin... Aliás, os cinco morreram com 27 anos de idade e em um mesmo período histórico. 
 
Godard lutou, resistiu e sobreviveu, o que já foi uma grande vitória, sem dúvida alguma, se levarmos em consideração o nível de compromisso que ele assumiu com esse projeto revolucionário, sendo que foi isso que lhe permitiu reconstruir a sua carreira e a sua vida posteriormente. E

Desta maneira, Godard se reinventou como cineasta, e também como pessoa, e, assim, ele deu início a uma nova e bonita trajetória, na qual contou com a fundamental colaboração de Anne-Marie Miéville, cineasta suíça culta e talentosa e com quem ele irá desenvolver inúmeras pesquisas, projetos e trabalhos durante muitos anos. 

Assim, como um cineasta brilhante e absolutamente genial que sempre foi, Godard irá, nas décadas seguintes, em seus novos filmes e trabalhos (com Vídeo, Cinema e TV), continuar comprometido com a sua Arte e com a ideia de uma Humanidade radicalmente diferente, o que ele manteve até os seus últimos dias atuais. 
 
O seu falecimento, em 13/09/2022, privou a humanidade de um grande artista que estava, claramente, comprometido com a construção de um mundo que fosse marcado pela liberdade e pelo humanismo.
 
E isso ele mostrou não apenas em seus longa metragens, mas também em inúmeros curtas (alguns feitos com Anne-Marie Miéville), incluindo 'Pour Thomas Wainggai' (1991), 'A Infância da Arte' (1992), 'Je Vous Salue, Sarajevo' (1993) e 'Sang Titre' (2019).

A jovem Eve Democracy se integra à luta revolucionária dos Black Panthers, mas acaba sendo assassinada, junto com outro Black Panther. Para Godard, as forças progressistas do período, a chamada 'Nova Esquerda', se recusavam a assumir um compromisso com um claro projeto de transformação revolucionária da sociedade. 
 
Conclusão!

Adoro esse filme do Godard, que foi o primeiro que ele fez após 'Weekend' (1967), que encerrou a fase Nouvelle Vague (1959-1967), marcando uma transição para o cinema explicitamente político, revolucionário e ideológico da fase maoísta, quando criou o Grupo Dziga Vertov com Jean-Pierre Gorin, no início de 1968.

Godard mostra, ao gravar os The Rolling Stones em um grande estúdio, com inúmeras pessoas envolvidas na produção e concepção da música e do álbum (executivos, produtores, músicos, técnicos, amigos dos Stones) que o Rock tinha se tornado um grande negócio, envolvendo muitas pessoas e no qual já tinha muito capital investido.

Não era mais apenas música. O Rock tinha se tornado parte de uma grande indústria.

Godard antecipa, assim, aqueles megagrupos e grandes artistas dos anos 70 (Pink Floyd, Led Zeppelin, Black Sabbath, Genesia, Yes, Deep Purple, David Bowie), que vendiam milhões de discos, lotavam estádios e arenas pelo mundo todo, influenciando o comportamento e o estilo de vida de milhões de pessoas pelo mundo afora, dos mais jovens em especial.

'One Plus One' (1968), de Godard, mostra o nascimento desse universo.  

Godard foi um talento imenso, genial e inquieto, que enxergava mais e mais longe do que os outros.

Sinopse Resumida!

'One Plus One'/'Sympathy for the Devil' (Jean-Luc Godard; 1968; 97 minutos)!
 

Filme realizado por Godard em 1968, no Reino Unido, e que usa da técnica de colagem, criada pelos Cubistas. O filme é dividido em vários momentos, aparentemente desconectados, mas que estão relacionados entre si e que mostram um panorama da Contracultura ocidental do período, incluindo os seguintes momentos: 

- The Rolling Stones compondo o arranjo de 'Sympathy for the Devil', um dos maiores clássicos do grupo, música que até os dias atuais é tocada em seus shows; 

- Anne Wiazemsky sendo entrevistada e fazendo pichações, de teor político e revolucionário, por toda a cidade de Londres; 

- Atores declamando textos de autoria de líderes dos Black Panthers, defendendo o Black Power, em um ferro velho de veículos, com um deles sendo entrevistado e no qual fala sobre as estratégias de luta e os objetivos dos 'Black Panthers';

Outro jogo de palavras no qual Godard mistura várias delas para criar novas. Assim, a expressão 'Sob as Pedras da Praia' forma novas palavras, que são 'One' e 'URSS', além de, é claro, se referir aos The Rolling Stones e ao cenário no qual temos o encerramento do filme.

- Um narrador que faz a leitura do conteúdo de um romance político e pornográfico; 
 
- Um jovem proprietário fascista de uma banca de revistas que faz a leitura de trechos do 'Mein Kampf', de Hitler, enquanto vende revistas pornográficas e romances baratos de baixa qualidade literária. 
 
- O filme é importante por mostrar e traçar um quadro bastante significativo do momento histórico (político, social, musical, cultural, comportamental) contendo alguns dos principais acontecimentos e símbolos políticos e culturais do período (Rock, Black Panthers, Teatro Político). 
 
- O filme também mostra o dilema que Godard enfrentava neste momento, dividido entre o Cinema e a Revolução. Ele resolverá isso criando e participando do 'Grupo Dziga Vertov'. 
 
- Godard mostra, também, que o Rock estava se transformando em um grande negócio, que envolvia cada vez mais capital e pessoas. O tamanho do estúdio de gravação, o número de pessoas envolvidas nas sessões, refletindo uma clara divisão social do trabalho existente ali, com a presença de música, executivos, produtores, técnicos, trabalhadores comuns, amigos dos membros dos Stones. Godard antecipa, assim, a emergência dos grandes grupos e artistas de rock dos anos 1970, que vendem milhões de discos, lotam estádios e arenas, ficam milionários e usam drogas e álcool em abundância.

Sequência final, com Eve Democracy morta, em um guindaste, com uma câmera lhe acompanhando. Isso significaria o compromisso de Godard, ainda na condição de cineasta, com um projeto revolucionário, o que ele irá intensificar nos anos seguintes, quando integrou o 'Grupo Dziga Vertov'.

Informações Adicionais!

Título: 'One Plus One'/'Sympathy for the Devil';
Diretor: Jean-Luc Godard;
Roteiro: Jean-Luc Godard;
Duração: 97 minutos;
País de Produção: Reino Unido;
Gênero: Musical; Drama Político;
Música: The Rolling Stones;
Fotografia: Tony Richmond;
Elenco: The Rolling Stones (M. Jagger, K. Richards, B. Jones, B. Wyman e C. Watts); Anne Wiazemsky; Sean Lynch (narração); Iain Quarrier (vendedor de livros fascista); Nicky Hopkins (teclado); Anita Pallemberg; Marianne Faithfull; Miitantes 'Black Power' inclui Frankie Dymon, Danny Daniels, Roy Stewart, Clifton Jones.

Links:

Texto sobre o filme:
https://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq2907200717.htm

Os 'Black Panthers' - sua história, programa e organização:
https://vermelho.org.br/2016/11/04/recordar-o-partido-dos-panteras-negras/

Trailer do filme em HD:



Livro de Tariq Ali sobre o ano de 1968:

Livro do escritor paquistanês Tariq Ali sobre o convulsionado e turbulento ano de 1968, quando ele participou ativamente de muitas reuniões, protestos, assembleias e manifestações. Em um dos atos, que ocorrem em Março, em Londres, a brutal repressão policial levou Mick Jagger a escrever a bela e clássica 'Street Fighting Man'.

Vídeo da música (ao vivo):

Quando a Ditadura Militar impediu os Rolling Stones de tocarem no Brasil:

The Master and Margarida (Mikhail Bulgakov) 

O Mestre e Margarida, por Milton Ribeiro:

Vídeo - Franz Ferdinand (Love and Destroy):
 
Vídeo - Pearl Jam (Pilate):
 
'Je Vous Salue, Sarajevo' - Curta metragem:
 

O TEXTO FOI ATUALIZADO NO DIA 28/02/2023.

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