'Helas Pour Moi' - Godard mostra a busca espiritual por um conhecimento que a humanidade perdeu!

'Helas Pour Moi' - Godard mostra a busca espiritual por um conhecimento que a humanidade perdeu! - Marcos Doniseti!

'Helas Pour Moi' (Infelizmente Para Mim; 1993): Um belo filme de Godard, que mostra que a humanidade se afastou da dimensão espiritual da vida.

A trajetória de Godard e a produção de 'Helas Pour Moi'! 

Este filme faz parte do chamado 'Período Tardio' (como o denominou o crítico Jonathan Rosenbaum) da obra de Godard, que seria a terceira fase (ou quarta, dependendo dos critérios usados) da carreira do cineasta franco-suíço que começou com o lançamento, em 1980, de 'Sauve qui peut (la vie), o belo filme que marcou o seu retorno ao circuito comercial e aos festivais de Cinema.

Antes deste período nós tivemos a fase 'Nouvelle Vague', que vai de 'Acossado' (1960) até 'Weekend' (1967), ao final do qual Godard anunciou para a equipe de técnicos, com os quais ele trabalhava há muito tempo, que estava abandonando o Cinema e que eles poderiam procurar trabalho em outros lugares, com outros cineastas. Por isso mesmo que no fim de 'Weekend' vemos escrito 'Fim da História. Fim do Cinema', pois Godard não tinha mais intenção de continuar filmando.

Aliás, quando Philippe Garrell e Bernardo Bertolucci ficaram sabendo que Godard não tinha mais intenção de fazer filmes, ambos reagiram da mesma maneira, dizendo que ele não poderia fazer isso pois, na visão deles, Godard é quem mostrava o caminho que os outros cineastas deveriam seguir.

Posteriormente, Godard entrou na sua fase Maoísta ou Revolucionária, quando fez parte do 'Grupo Dziga Vertov' (1968-1972), que ele criou junto com Jean-Pierre Gorin, quando procurou não apenas fazer filmes sobre temas políticos, mas fazer filmes politicamente.

É bom deixar claro que os filmes do período Maoísta e Revolucionário de Godard, que inclui aqueles que foram feitos na época do 'Grupo Dziga Vertov', não foram realizados para agradar ao grande público e nem para ser exibidos no circuito comercial e tampouco em festivais. Estes filmes tinham, de fato, finalidade política e revolucionária.

'As Mulheres de Argel', quadro de Eugène Delacroix. Os filmes de Godard sempre fazem muitas referências à Pintura. Godard pintou muitos quadros em sua juventude e chegou a organizar uma mostra com os mesmos em sua casa. Não é à toa que a sua paixão pela Pintura sempre ficou muito clara em seus filmes.

Nestes filmes que fizeram juntos na época do 'Grupo Dziga Vertov' (Vento do Leste; Lutas Ideológicas na Itália; Vladimir e Rosa; Tout va Bien e Carta para Jane) Godard e Gorin tentaram levar adiante um processo de formação política e ideológica de estudantes e operários visando difundir a ideia de uma Revolução Socialista. Já nos anos 1970, Godard também realizou, junto com Anne-Marie Miéville, trabalhos para a TV e pesquisas com Vídeo. 

Além dos filmes citados, Godard e Gorin foram convidados pela 'Al Fatah' (organização que fazia parte da OLP) para fazer um filme sobre a luta dos Palestinos ('Até a Vitória'), que eles apoiavam, e que foi filmado na Jordânia, em 1970. 

O filme recebeu um pequeno valor da Liga Árabe (US$ 20 mil dólares, na época), mas o dinheiro acabou e os dois, Godard e Gorin, retornaram para a França, onde fizeram 'Vladimir e Rosa', para conseguir mais dinheiro para finalizar o 'Até a Vitória'.

Mas o massacre que o governo jordaniano promoveu contra os Palestinos, em Setembro de 1970, impediu que o mesmo fosse concluído. Godard incluiu cenas do 'Até a Vitória' em um filme posterior, que foi o 'Aqui e em Qualquer Lugar' (1976), que filmou junto com Anne-Marie Miéville. 

Nesta fase Godard também chegou a ir até a Tchecoslováquia, em Março de 1969, onde fez 'Pravda', de forma clandestina. Depois, em Junho de 1969, ele foi para o Reino Unido, onde filmou 'British Sounds'. Estes dois filmes foram resultado de uma colaboração, principalmente, com o jovem maoísta Jean-Henri Roger. 

Depois, Godard foi para os EUA, onde ficou em Outubro e Novembro de 1968, e fez muitas filmagens sobre a chamada 'Nova Esquerda' dos EUA (Direitos Civis, Black Panthers, Movimento Estudantil, Rock Psicodélico, Contracultura) para um filme que deveria se chamar 'One A.M.' (One American Movie). 

No filme, Godard contou com a colaboração de D. A. Pennebaker e de Richard Leacock, dois documentaristas ligados ao movimento chamado 'Cinema Verdade'. 

Porém, Godard foi embora dos EUA sem concluir o filme e, em 1971, D.A. Pennebaker foi cobrado pela PBS para que finalizasse o filme (que havia sido financiado pela PBL, canal de TV público do qual a PBS foi a sucessora). Daí, ele pegou o material que havia sido filmado por Godard, acrescentou algumas cenas e finalizou o mesmo, que ganhou o título de 'One Parallel Movie', que foi lançado em 1971.

Bernanrd Verley interpreta o jornalista Abraham Klimt neste belo e poético filme de Godard, que é marcado por uma busca espiritual. Klimt está escrevendo um livro sobre a vinda de Deus à Terra e o envolvimento Dele com uma mulher, mas faltam algumas informações para completar o mesmo.

Neste período, nos primeiros anos da década de 1970, após o fim do 'Grupo Dziga Vertov' (que ocorreu em 1972), Godard trabalhou com a artista multimídia, de origem suíça, Anne-Marie Miéville, que foi fundamental para que Godard desse início a uma nova fase, se reinventando novamente. Eles viveram e trabalharam juntos até o fim da vida de Godard, em setembro de 2022. 

Com isso, ele passou a realizar filmes que tratavam de aspectos do cotidiano e da vida pessoal dos personagens, e que estavam claramente conectados com uma busca espiritual.

Outros elementos da sua fase anterior permaneceram neste 'Período Tardio', como as referências e comentários a respeito de acontecimentos históricos, tal como a Guerra da Bósnia (1992 a 1995), que é citada em 'Helas Pour Moi' (1993) e também em 'For Ever Mozart' (1996). 

'Helas Pour Moi' é uma produção de 1992 (foi filmado nos meses de Junho e Julho) e contou com a participação de Gérard Depardieu, mas consta que o mesmo abandonou as filmagens ainda quando elas estavam na metade, o que não impediu que Godard concluísse o filme, pois ele usou um dublê para fazer as cenas que faltavam.

Em ‘Infelizmente Para Mim’, Gérard Depardieu é quem interpreta Deus e, também, Simon, que é o marido humano e mortal de Rachel. Enquanto isso, a ruiva Rachel é interpretada pela atriz francesa Laurence Masliah, que já havia trabalhado com Godard no filme ‘Soigne ta droite’ ('Atenção à Direita'; 1987).

Uma estudante folheia um livro de Pintura, que sempre exerceu uma grande influência sobre Godard, que é um grande conhecedor e um apaixonado por essa forma de Arte. No filme temos referências a Delacroix e Gustav Klimt.

O filme é dividido em cinco 'livros'. E em vários momentos vemos intertítulos e frases sobre um fundo negro, que interrompem as imagens, mas não as falas dos personagens, e cujo conteúdo está diretamente relacionado com a trama, tais como: 

- Em Busca de Deus; 

- Proposta de Cinema; 

- A Lei do Silêncio; 

- Somos esperados na Terra; 

- De Certas Coisas; 

- O Passado Nunca Morre; 

- O Homem é a Sombra de Deus para a Mulher que o Ama; 

- Deste modo, gradualmente, o Passado volta ao Presente através da encenação Imaginária de uma Experiência Visual que sempre solicita vários Olhares; 

- Tudo está em Um;

- E o Outro também está em Um;

- E estas são as Três Pessoas; 

- Nem Criatura, Nem Criador; 

- Todos dormiram, como se todo o Universo fosse um enorme erro; 

- Simon não amou você em vão, Não terei você para Amar por nada; 

- Eu não te vejo; 

- Infelizmente Para Mim; 

- Amar por nada; 

- O Céu cava buracos entre as folhas de ouro; 

- Todos estamos rodeados de sonhos invisíveis.

Abraham Klimt fuma um cigarro à beira do rio. E no gramado vemos dois remos cruzados, formando um símbolo que lembra argilas sumérias com imagens do deus Ninurta, que era o deus da fertilidade sumério, presidindo as cheias dos rios que adubavam a terra.

A Mitologia Grega, as referências e a trama de 'Helas Pour Moi'! 

As tramas dos filmes de Godard são sempre muito simples.

O que torna os seus filmes mais complexos são as inúmeras referências e citações sobre literatura, música, cinema, filosofia, pintura, mitologia, poesia que estão espalhadas pelo filme e que também estão, de alguma forma, relacionadas à trama, tornando-a muito mais complicada, o que leva muitas pessoas a afirmar que os seus filmes seriam 'obscuros e impenetráveis'. 

Os filmes de Godard também estão sempre repletos de experimentos visuais e sonoros inovadores e incomuns.

Assim, neste filme, temos a presença de várias vozes que são ouvidas de forma  simultânea durante o filme e que, em alguns momentos, não são apenas dos personagens que vemos na tela, mas também de outros que nunca aparecem, como a de vários (as) narradores (as) que, de uma forma ou de outra, dialogam com os personagens visíveis e com a trama do filme.

Assim, a história de ‘Helas Pour Moi’ é, primeiramente, baseada em um texto ("Ao Patriarca: ou Sobre as Origens da Raça Humana"), de autoria do poeta italiano Giacomo Leopardi (que é citado no filme). O texto trata dos sofrimentos de um Deus que acompanha a existência atribulada dos seres humanos que ele criou.

E o filme de Godard, também, se inspira na Mitologia Grega, quando Zeus vem à Terra para se relacionar com uma bela mulher (Alcmena) que é a esposa de Anfitrião, que se encontrava ausente, combatendo em uma guerra.

Anteriormente, em outra guerra, Anfitrião acabou matando, acidentalmente o seu próprio sogro, Electrião (foi o chamado 'fogo amigo'), e por isso Alcmena exigiu que ele voltasse a lutar contra o mesmo inimigo anterior (o Rei Ptérela, de Tafos), continuando a combater na guerra em que o pai dela havia morrido.

Nelly, o livreiro Jack e dois pastores protestantes conversam sobre a Mitologia da antiga Babilônia, civilização que construiu inúmeros Zigurates, que eram escadas que serviam para que os Deuses pudessem vir à Terra.

Desta maneira, Zeus aproveita a ausência de Anfitrião e se faz passar por ele, assumindo a sua aparência e assim consegue seduzir Alcmena por três noites seguidas, pois ela (que era inteiramente fiel ao seu marido) pensava que estava se relacionando com o esposo que havia retornado da guerra.

Inclusive, é do relacionamento amoroso de Zeus com Alcmena que nós teremos o nascimento de Héracles (Hércules), o maior dos heróis gregos. 

Neste filme vemos que Godard, tal como aconteceu nos primeiros anos do seu ‘Período Tardio’, mostra claramente o seu desejo de realizar uma busca espiritual (vide também os filmes 'Passion', de 1982, e ‘Je Vous Salue, Marie’, de 1985), em direção ao Divino e ao Sagrado, tentando uma aproximação entre o ser humano e as forças divinas (ou apenas Divina) que o teriam criado.

Nesta adaptação, Godard fez algumas mudanças em relação à história original, incluindo os nomes dos personagens, que foram alterados. Assim, o Zeus da Mitologia Grega torna-se o Deus cristão, Alcmena passa a se chamar Rachel e Anfitrião se torna Simon (Simão; Pedro). 

Simon e Rachel são casados, fiéis e felizes, sendo pequenos proprietários de uma oficina mecânica, em uma pequena cidade do interior da Suíça, que estão se preparando para comprar um hotel.

É durante a viagem de Simon para concluir a compra do mesmo que o próprio Deus cristão (e não mais o Zeus grego) decide vir à Terra para ter um relacionamento amoroso com Rachel e vivenciar uma situação semelhante à de muitos humanos. 

Aliás, a presença e domínio dos elementos claramente religiosos no filme já fica claro pelos nomes dos personagens: Abraham, Simon, Rachel, Benjamin...

A água simboliza, entre outras coisas, transformação, purificação e renascimento. E Rachel passará por uma experiência transformadora.

Durante o filme vemos, como já é habitual nos filmes de Godard, frases, aforismos, citações literárias, históricas, pictóricas, filosóficas e, é claro, religiosas e mitológicas que estão de alguma forma relacionadas à trama. 

Em uma delas, por exemplo, temos a citação dos livros ‘O Manifesto do Partido Comunista’ (Marx e Engels) e de ‘Alice no País das Maravilhas’ (de Lewis Carroll) que, aliás, também foram citados em ‘Made in U.S.A’, filme de 1966 de Godard. Os livros 'Lord Jim' (de Joseph Conrad) e 'A Ceia dos Acusados' (de Dashiell Hammett) também são citados no filme, com a leitura de alguns trechos dos mesmos.

Também vemos um cartaz de Stendhal afixado na porta de uma livraria e temos uma personagem chamada Marinette Duras, o que é uma referência à escritora francesa de quem Godard foi amigo. E o nome de família de Raquel é Donnadieu, que também era o nome de família de Marguerite Duras (que foi escritora e cineasta). Logo, esta se chamava Marguerite Donnadieu. 

Também temos várias referências à Pintura, como ao quadro 'As Mulheres de Argel' (de Eugène Delacroix) e ao pintor austríaco Gustav Klimt.

E é claro que existem referências cinematográficas, como citações ao cineasta francês Jean-Marie Straub e a Alfred Hitchcock (vemos um trecho do seu filme 'I Confess' ser exibido em um aparelho de TV). E também temos  cartazes do consagrado ator francês Michel Simon e do filme 'Antígone' (de Jean-Marie Straub e Danièle Huillet) afixados em uma locadora de vídeo (sim, na época elas ainda existiam). 

Godard também faz uma referência à sua origem familiar, pois a professora de literatura da escola local tem o nome de família Monod, que era o nome de família da mãe de Godard, que se chamava Odile Monod, que era integrante de uma rica família de banqueiros suíços protestantes. O avô materno de Godard, chamado Julien Monod, foi o fundador do Banco Paribas. 

Rachel e Simon conversam, antes da chegada de Deus, observados por Nelly. Em 'Helas Pour Moi' vemos belas imagens filmadas por Godard e um belo uso da fotografia, que se relaciona com os diálogos e frases que são ditas.

A conexão entre as reflexões e a trama do filme! 

O filme também é marcado pela presença de inúmeras reflexões (filosóficas, mitológicas, religiosas, históricas...).

Um exemplo disso é a frase dita pelo dono da livraria a alguns estudantes, que fala o seguinte: "Eu digo a vocês, crianças, a Pintura não revelará o caminho para a visão exterior do Universo". E um narrador também diz que "Os pintores não revelaram o segredo do sofrimento". 

Estas afirmações são coerentes com uma outra, feita em outro momento, na qual é dito que a linguagem cinematográfica é imperfeita, o que mostra que Godard possui total consciência de que não é possível, ao ser humano, conhecer toda a realidade e toda a verdade, seja sobre o Universo, a Natureza ou sobre o próprio Homem.

Outra afirmação feita por um narrador (há várias vozes no filme... elas não são apenas dos personagens) é a seguinte: '... Em uma contemplação quase ciumenta do rosto e dos gestos humanos. É na luz que alguém deve compor para iluminar, com a harmonia das estrelas mais distantes, a escuridão mais gritante'.

Uma possível interpretação para isso é que Deus chega a quase sentir inveja das sensações e da beleza humanas e que é justamente em função disso que ele decide vir à Terra para experimentar tais sensações e sentimentos, escolhendo sentir e vivenciar o que é amar e ser amado por uma mulher (Rachel, a mulher de Simon).

Em outro momento, no início do filme, um narrador pergunta o seguinte: "A voz dos amigos não é, às vezes, assombrada pelo eco daqueles que nos precederam na Terra? E a beleza das mulheres de outrora não se parece com a das nossas amigas?".

Abraham Klimt conversa com uma moradora (Aude) para ver se consegue confirmar a história sobre um relacionamento amoroso entre Deus e Rachel. Assim, Godard usa do recurso do flashback para contar essa história que se baseou na Mitologia Grega.

E daí o narrador continua e diz o seguinte: "Cabe a nós compreender que o passado requer redenção e uma parte muito pequena dele está, talvez, ao nosso alcance. Há um encontro misterioso entre as gerações passadas e as nossas. Éramos esperados na Terra". Portanto, Godard estabelece, claramente, a existência de uma ligação que existe entre as gerações humanas do passado e as do presente. 

E depois uma narradora fala o seguinte: "Nossa época está em busca de uma pergunta perdida, como se estivesse cansada de respostas adequadas". Entendo que, neste trecho, Godard está dizendo que a Ciência, a Modernidade, não nos permite acessar ao mundo espiritual e, assim, os seres humanos procuram por esse contato, mas sem que as pessoas saibam o que seria possível fazer para se atingir esse objetivo.

Portanto, Godard estabelece uma nítida conexão entre o passado e o presente da humanidade, pois ainda temos a existência, em nossa época, de alguns elementos da Antiguidade entre nós. Logo, isso permitiria que um acontecimento como aquele que envolveu Zeus e Alcmena pudesse vir a se repetir em nosso tempo.

Isso explicaria uma frase que é dita por um dos personagens, que é a seguinte: "Se a França permitir um ressurgimento da Religião, será com grande alegria pelo divino que estará entre todos nós".

E a professora de Literatura (Anne Monot) fala, para o seu marido (o pastor Eric), uma frase de Mallarmé, que é a seguinte: "Declarações falsas são pesos mortos que carregamos por anos".

Oras, a história do filme gira em torno da busca feita por um jornalista (Abraham Klimt) e que irá basear as suas conclusões nas declarações dos moradores locais, às quais ele não saberá se são verdadeiras ou não, pois elas são contraditórias.

Gérard Depardieu interpreta Simon e Deus, que vem à Terra acompanhado de um anjo (Max), que o ajuda a encontrar uma mulher fiel e honrada com a qual ele possa ter um relacionamento amoroso. Nesta cena, Simon está meio que hipnotizado e Deus, logo atrás, irá colocar o chapéu em Simon (Depardieu) e, assim, irá assumir a mesma forma de seu corpo, para que daí possa conquistar Rachel.

Em uma fala de um dos personagens (um pastor protestante) também é dito que os 32 Zigurates construídos na época da Babilônia eram locais que tornavam possível a descida dos deuses à Terra, o que está diretamente relacionado à trama do filme, que trata justamente da descida de Deus à Terra para ter um relacionamento amoroso com uma mulher mortal e humana. 

Obs1: Segundo estudiosos, os Zigurates eram também os templos nos quais os Deuses mitológicos ficavam, eram as suas moradas quando vinham ao nosso planeta. Assim, a ‘Torre de Babel’, construída na Babilônia e que é citada no 'Velho Testamento', era um Zigurate que possuía 90 metros de altura e que continha um templo que foi construído em homenagem ao deus babilônio Marduk. 

Em uma cena, também no início do filme, vemos dois remos cruzados, à beira de um rio, enquanto Abraham Klimt fuma um cigarro. Estes dois remos cruzados formam um símbolo que é encontrado em argilas sumerianas que contém a imagem do deus Ninurta, que era, entre outras coisas, o deus sumeriano da água, que fertilizava o solo.

Tal fato mostra que Godard pesquisou sobre o assunto a fim de poder fazer o filme, comportamento que é bastante antigo na carreira do cineasta franco-suíço. Assim, para fazer 'A Chinesa' (1967) ele conversou com estudantes maoístas da época, alguns deles participaram do filme e o jovem intelectual e militante maoísta Jean-Pierre Gorin foi um consultor do filme.

Logo, há uma nítida e clara conexão entre estas reflexões e a trama do filme. Então, se isso acontece, como é que alguém pode afirmar que os filmes de Godard são 'herméticos e incompreensíveis'.

Deus entrou no corpo de Simon e, depois, chega à casa de Rachel, que se espanta ao ver um homem que é semelhante ao seu marido, que havia viajado e que não deveria estar ali.

Isso é um absurdo e tal postura é resultado mais da falta de vontade das pessoas em parar, pensar e pesquisar sobre o que Godard mostra e diz em sua vasta e genial obra do que pelo fato de que os seus filmes seriam 'obscuros' e impossíveis de se compreender.

Tal obscuridade e incompreensão da obra de Godard existe apenas para quem tem preguiça de pesquisar e de pensar a respeito da mesma.

Além de usar destas inúmeras reflexões, a história do filme também é contada e explicada por meio do uso da memória, que é um tema de grande importância nos filmes que Godard realizou neste chamado 'Período Tardio', principalmente no belíssimo "Éloge de L'Amour" (2001).  

A trama do filme! 

O filme começa quando um editor e jornalista chamado Abraham Klimt (interpretado por Bernard  Verley) chega a uma pequena cidade do interior da Suíça para confirmar a veracidade de uma fantástica história que ele ouviu e que dizia que Deus teria vindo à Terra para saber o que é sentir amor por uma mulher e ser amado por ela. 

Klimt conversa com os moradores locais que, espera ele, se lembrariam de como teria se desenvolvido essa fabulosa história, que teria envolvido o Todo Poderoso e a fiel e leal Raquel, esposa de Simon. Sua principal fonte de informação será a jovem estudante Aude Amiot.

E quando ela, Raquel, pergunta para o Todo Poderoso porque a escolhera, Deus responde que fez isso justamente por ela ser uma mulher fiel ao seu marido.

Klimt pergunta aos moradores, especificamente, o que aconteceu na tarde de 23 de Julho de 1989, pois ele está escrevendo um livro sobre o que aconteceu naquele dia e ainda estão faltando algumas páginas para completar a obra. Porém, ele irá ouvir respostas diferentes e contraditórias a respeito do que Rachel estava fazendo naquele dia.

Após uma noite de amor com Deus, a fiel Rachel ainda está confusa sobre o que aconteceu.

Aliás, durante o filme vemos Godard fazer experimentos sonoros, com várias pessoas falando ao mesmo tempo, diálogos e frases que são ditas por personagens que não aparecem na imagem ou que envolvem pessoas do mundo espiritual.

Em alguns momentos ouvimos uma voz, que é a de Deus, e que se parece com a do filme 'Alphaville' (1965), o único filme de ficção científica da carreira de Godard, nos quais o Todo Poderoso conversa com o anjo (Max) que o acompanha em sua vinda à Terra.

Desta forma, em alguns momentos vemos Deus e um anjo (Max) que o acompanha nesta viagem à Terra (deve ser um anjo, embora o mesmo não seja identificado como tal) conversando a respeito da chegada dele à Terra e sobre que tipo de mulher seria Rachel e que tipo de homem seria o seu marido, Simon. 

No filme, Godard diz que as pessoas, do mundo atual, se afastaram do mundo espiritual, do Sagrado, do Divino, e perderam a capacidade de orar e de se conectar com o mundo dos Deuses ou de Deus.

Esse é, claramente, o tema principal deste seu belo filme. Logo, se podemos perceber do que trata o filme e quais são os elementos que estão presentes no mesmo, então como podemos afirmar que este filme de Godard possuiria um caráter 'obscuro e impenetrável'?

Depois que descobriu com quem havia tido um relacionamento amoroso, Rachel adota uma postura de submissão.

Assim, logo no começo do filme, vemos o jornalista Klimt fazer algumas afirmações que resumem qual é a essência de 'Helas Pour Moi'. Isso acontece quando ele diz que, antigamente, o seu bisavô, quando tinha uma missão difícil para cumprir, caminhava em direção a uma floresta, acendia uma fogueira, orava silenciosamente e cumpria com a sua tarefa. 

Depois, o seu avô fazia o mesmo, cumprindo a mesma tarefa, mas já não sabia acender a fogueira, limitando-se a orar, mas assim mesmo ele cumpria com a sua tarefa. E daí o pai de Klimt já não sabia nem acender a fogueira e tampouco fazer as orações, mas sabia o local exato onde tudo aconteceu e, assim, cumpria com a sua tarefa. 

E finalmente,  o próprio Klimt admite que não sabe fazer nada do que o seu bisavô, seu avô e o seu pai fizeram, mas diz que ele sabe contar uma história e que isso é o suficiente. 

Assim, neste momento inicial, Godard já deixa claro que o filme trata do processo de perda de contato da humanidade com o mundo espiritual, mostrando que o ser humano se afastou da dimensão do Sagrado, do Divino, e que não sabe mais como proceder para entrar em contato com o mundo do Espírito. O ser humano não domina mais tal conhecimento que, antigamente, permitia que ele se conectasse com o Divino. 

Desta maneira, Godard diz que sabemos que histórias fantásticas e fabulosas aconteceram em outras épocas, há muito tempo, mas que não temos mais o conhecimento dos Antigos, que foi perdido pela humanidade, e que nos limitamos a tentar descobrir o que teria acontecido. Portanto, contar histórias é a única coisa que o ser humano ainda consegue fazer, segundo Godard.

Deus em meio à água, logo após ter uma relação amorosa com Rachel. Ele se apoderou do corpo de Simon para poder fazer amor com a esposa deste. Ele também deseja levar Rachel junto com ele, pois passou a amar essa mulher, mas ela recusa a oferta divina.

Desta forma, a maneira pela qual se pode promover a transmissão do conhecimento, por um homem que se chama Abrahão, se torna o tema central do filme. E para fazer isso ele conta com a grande ajuda da jovem Aude. No entanto, a história termina sem que se chegue a uma conclusão sobre o que realmente aconteceu naquela pequena cidade.

Assim, mesmo neste aspecto, o cineasta demonstra ter consciência de que mesmo essa capacidade possui os seus limites, dizendo que a linguagem do Cinema é imperfeita. Em 'Passion', filme de 1982, Godard diz que o Cinema não tem como apreender toda a realidade conseguindo, no máximo, promover uma aproximação da realidade, mas não há como conhecer tudo. 

Desta forma, essa ideia é retomada em 'Helas Pour Moi'. 

Porém, Klimt acredita que isso seria o suficiente para que ele pudesse descobrir quando, onde e em quais circunstâncias Deus e Rachel teriam tido o seu relacionamento amoroso. E para saber o que aconteceu é que ele irá conversar com os moradores locais.

No entanto, ao final da trama ele ficará em dúvida sobre o que de fato aconteceu, se é que aconteceu alguma coisa, pois irá ouvir versões diferentes e contraditórias sobre o que ocorreu ou o que teria ocorrido no local em Julho de 1989.

Obs2: Gustav Klimt foi um pintor simbolista austríaco e que viveu entre 1876 e 1918. Assim, esta é mais uma das referências ligadas à Pintura que temos no filme. A obra 'Mulheres de Argel', de Eugène Delacroix, também é citada no filme. Aliás, essa pintura tem duas versões, sendo uma de 1834 e outra de 1849, na qual Delacroix fez várias mudanças em relação à pintura anterior. Godard também costuma fazer o mesmo, usando uma mesma frase em vários filmes, mas sempre fazendo alguma mudança na mesma. 

E durante o desenvolvimento da trama nós também vemos a reação de perplexidade e incompreensão da própria Rachel, pois o seu marido (Simon) tinha saído da cidade para fechar um negócio, de compra de um hotel, e não voltaria senão depois de alguns dias.

Deus observa Rachel, mulher pela qual se apaixonou, em uma belíssima sequência do filme de Godard. Deus lhe perguntou se ela gostaria de se tornar imortal, mas ela preferiu continuar vivendo com Simon, seu marido humano e mortal. 

Porém, um homem semelhante à Simon aparece na mesma noite e ela fica confusa, pois apesar da sua aparência ele não parece ser, de fato, Simon. Seu comportamento é diferente daquele do seu marido e ela chega a perguntar se ele estava louco.

E mesmo na manhã seguinte à noite de amor com aquele homem que é igual ao seu marido, mas que não é o mesmo, ela ainda está muito confusa e tentando entender o que, afinal, havia acontecido.

Tal homem é, de fato, Deus, que revela para uma confusa Rachel quem Ele é. E somente depois de muitas horas, após ter feito amor com Ele, é que ela irá perceber quem Ele é. E no fim o próprio Deus descobre-se apaixonado por Rachel.

Deus pergunta para Rachel se ela não gostaria de se tornar imortal, mas ela diz que não, pois prefere voltar a viver normalmente com o seu marido, humano e mortal. Quanto a Abraham Klimt, ele irá embora com a eterna dúvida a respeito do que aconteceu naquela pequena cidade do interior da Suíça.

Portanto, o ser humano teria perdido até mesmo a capacidade de contar uma história, que seria a única herança da Antiguidade que a humanidade teria preservado. Mas, para Godard, nem mesmo isso é mais possível.

O filme foi lançado em setembro de 1993 e foi bem recebido pela crítica, com vários textos elogiosos sendo publicados no 'Libération' e no 'Le Monde'. 

No 'Le Monde', tivemos a publicação de um texto do filósofo Regis Debray, que escreveu que o filme era "Uma colagem de mosaico ingênuo, com raios de luz entre as facetas... Com o sentido de história desmoronada, emerge das ruínas a nostalgia das origens". Na França, o filme foi visto por 80 mil espectadores, e o público não foi maior porque o astro principal, Gérard Depardieu, que entrou em conflito com Godard durante as filmagens, recusou-se a promover o filme.

Este é mais um belo filme de Godard e que exige, sim, um esforço intelectual significativo de quem o assiste, para que o mesmo possa ser melhor compreendido, mas ele está longe de ser, como se diz por aí, um filme 'hermético', ou seja, de que 'Hélas Pour Moi' seria impenetrável, obscuro e incompreensível. 

Mas quem se aventurar a fazer esse esforço e estiver disposto assistir e a tentar compreender este belo 'Hélas Pour Moi', com certeza não irá se arrepender, pois tal como é dito no filme, por um dos personagens (um pastor protestante), “A sabedoria não é para aquisição de conhecimento, mas é uma aventura’.

No final, ao ser questionado por Klimt, Simon diz que nada aconteceu e que foi ele que voltou para casa antes da hora e que, portanto, foi ele mesmo quem se relacionou com Rachel naquela noite. E Klimt, em dúvida, vai embora sem saber o que aconteceu.

Informações Adicionais! 

Título: Hélas Pour Moi (Infelizmente Para Mim); 

Diretor: Jean-Luc Godard; 

Roteiro: Jean-Luc Godard; 

País de Produção: França e Suíça; 

Ano de Produção: 1993; 

Fotografia: Caroline Champetier; 

Duração: 83 minutos; 

Gênero: Drama; 

Elenco: Gérard Depardieu (Deus/Simon Donnadieu); Laurence Masliah (Rachel Donnadieu); Bernard Verley (Abraham Klimt); Aude Amiot (Aude Amiel); Roland Blanche (Jack; livreiro/professor de artes); Jean-Louis Loca (Max); Benjamin Kraatz (Benjamin); François Germond (pastor protestante); Anny Romand (Anne Monod); Marc Betton (Médico); Manon Andersen (Ondine); Stefan Elbaum (Stefan; Jogador de tênis); Jérôme Pradon (Miguel).

Links: 

Folha de S. Paulo - Inácio Araújo: 

https://www1.folha.uol.com.br/fsp/1994/8/12/ilustrada/16.html 

A história de Zeus e Alcmena: 

https://pt.wikipedia.org/wiki/Alcmena

Trailer do Filme:

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