"Le Stagioni del Nostro Amore" mostra a crise existencial e as desilusões da intelectualidade de Esquerda italiana nos anos 1960!

"Le Stagioni del Nostro Amore" mostra a crise existencial e as desilusões da intelectualidade de Esquerda italiana nos anos 1960! - Marcos Doniseti!
O belo filme "As Estações do Nosso Amor" (1966), dirigido por Florestano Vancini, mostra o vazio existencial de uma geração que desejava mudar o mundo, mas que acabou derrotada, pois perdeu as suas referências (políticas, ideológicas, comportamentais, éticas, morais).

'Le Stagioni del Nostro Amore' e a carreira de Florestano Vancini!

Este é um belo, melancólico e triste filme do excelente diretor italiano Florestano Vancini, que nunca desfrutou da mesma fama e prestígio de Fellini, Visconti, Rossellini, De Sica ou de Antonioni, mas que fez excelentes filmes, principalmente nos anos 1960 e 1970.

E tal obra é, com certeza, uma das melhores dessa relação de grandes filmes de autoria de Vancini, que inclui clássicos como "La Lunga Notte del '43" (de 1960 e que já foi analisado aqui no blog) e o "Il Delito Matteotti" (de 1973).

Em "La Lunga Notte del '43"(1960), Vancini mostrou uma história de amor que é inviabilizada pelo fascismo e que os responsáveis pelos crimes deste regime brutal acabaram ficando impunes, enquanto que em 'Le Stagione Del Nostro Amore' vemos o vazio existencial e sentimental provocado pela destruição dos mais belos sonhos da juventude revolucionária do Pós-Guerra.

Esta foi a geração que lutou na Resistência e tentou mudar o mundo, mas que acabou sendo derrotada, muito em função do aburguesamento que atingiu a sociedade, fenômeno este que é mostrado por Florestano Vancini em seu belo filme.

E de certa maneira a morte de Palmiro Togliatti, o grande líder do PCI, em 1964, foi bastante simbólica do fim de uma era, a qual vários cineastas souberam retratar, brilhantemente, em belos filmes.

Esse tema acabou sendo pioneiramente desenvolvido por outro brilhante cineasta, nesta mesma época, que foi Francesco Maselli, que filmou uma 'Trilogia dos Valores Burgueses': Nesta trilogia de Maselli, nós tivemos 'Gli Sbandati' (1955), 'I Delfini' (1960) e 'Gli Indifferenti' (1964). 

Além de Francesco Maselli, que antecipou essa tendência com a sua trilogia, outros cineastas trataram do assunto, ou seja, do fim dos sonhos revolucionários que a geração do Pós-Guerra (da Resistenza Partigiana) alimentou.

No início do filme vemos que o relacionamento entre Vittorio e Elena chegou ao fim. À medida que a história vai se desenvolvendo, sendo contada por meio de flashbacks, vamos descobrindo os motivos que levaram à separação. 
 
Estes também foram os casos de Marco Bellocchio com "I Pugni in Tasca" (1965), de Bernardo Bertolucci, com "Prima della Rivoluzione" (1966), de Pier P. Pasolini, com 'Uccellacci e Uccellini' (1966) e dos irmãos Paolo e Vittorio Taviani, com "I Sovversivi" (1967). E também temos este belo 'Le Stagioni del Nostro Amore' (1966), de Florestano Vancini. 
 
De uma certa maneira, essa frustração que tais cineastas mostraram em suas obras, em tentar transformar a realidade e não conseguir, acabará desembocando no clássico filme 'Blow-Up' (1966), de Michelangelo Antonioni, no qual o grande mestre do cinema fazia um questionamento a respeito da natureza da realidade e também se podemos, de fato, conhece-la.
 
E se isso é inviável, como seria possível, então, conseguir modifica-la, parece perguntar Antonioni? 
 
Nesta bela obra de Vancini, o ótimo ator Enrico Maria Salerno interpreta, brilhantemente, um jornalista e intelectual de esquerda (Vittorio Borghi), militante veterano do PCI (Partido Comunista Italiano) e que lutou na Resistência anti-fascista, participando ativamente dos combates para derrubar o regime ditatorial de Mussolini e expulsar os nazistas alemães do norte da Itália. 
 
Porém, Vittorio está passando por um momento de crise existencial, sentimental, familiar, política e ideológica, o que o leva a relembrar e avaliar as decisões que tomou em sua vida e que provocaram a uma situação onde questiona tudo o que acreditou durante toda a sua vida e reflete a respeito de tudo o que fez até então.
 
A bela Elena (Jacqueline Sassard) deseja que Vittorio se separe da esposa para que possam viver juntos, mas ele tem grandes dificuldades em romper com a mesma.

O filme foi lançado em 1966, numa época em que já se aproximava o fim do 'Boom' econômico, que foi uma época de grande prosperidade, que ocorreu na Itália a partir da segunda metade dos anos 1950 e que provocou o 'aburguesamento' da sociedade, que é um dos temas centrais do filme de Vancini.
 
Este belo filme de Vancini também é um dos últimos do ciclo do chamado 'Pós-Neorrealismo Italiano', que começou por volta de 1959 e durou até 1967, período durante o qual muitos cineastas italianos (Vittorio De Sica, Luigi Zampa, Roberto Rossellini...), retomaram os temas da época de ouro do Neorrealismo (1943-1952), mas em um contexto histórico diferente e sob uma perspectiva mais triste e melancólica.
 
Afinal, os belos sonhos socialistas e revolucionários do período anterior do Neorrealismo foram substituídos pela constatação de que o Capitalismo Liberal e os Valores Burgueses haviam se consolidado e se tornado hegemônicos na Itália, frustrando a luta daquela geração de revolucionários dos anos 1940 que, no filme, é representada por vários personagens, como Vittorio Borghi, Leonardo Varzi e Carlo de Giusti (o Tancredi). 
 
É bom também chamar a atenção para a bela trilha sonora, de autoria de Carlo Rustichelli, e para a excelente fotografia do filme, feita por Dario de Palma, que refletem (em sons e imagens) a crise existencial vivenciada por Vittorio.
 
Assim, a fotografia branquíssima, estourada, como se a tela tivesse tomada por neve (o filme se passa no inverno e não é à toa) está diretamente relacionada com a história de vida de Vittorio e seu estado de espírito melancólico e desesperado.
  
Tudo está relacionado no filme: O forte inverno que atinge a Itália, o clima gelado entre os amantes (que nem se olham), cujo relacionamento está chegando ao fim, e a fotografia, em um tom fortíssimo de branco, que também transmite o sentimento de frieza existente entre Vittorio e Elena. Michelangelo Antonioni foi o pioneiro no uso desse recurso e neste filme Vancini faz um uso muito criativo do mesmo. 

A trama do filme!

Este é um belo filme do período áureo do cinema italiano e que foi dirigido por Florestano Vancini, um dos principais cineastas do país naquele período, tendo realizado outros filmes importantes, tais como "La Lunga Notte Del'43" (1960) e 'Il Delitto Matteotti" (1973).

O protagonista do mesmo é Vittorio Borghi (que é interpretado pelo brilhante Enrico Maria Salerno) e a história se desenvolve em meados da década de 1960, vinte anos após o fim da Segunda Guerra Mundial.

Vittorio é um jornalista italiano de quarenta anos que lutou na Resistência (foi um Partigiano) e que sempre foi ligado ao PCI (Partido Comunista Italiano). Vittorio foi colaborador, por muitos anos, do jornal do PCI, para o qual escreveu inúmeros artigos. Seu pai (Mario Borghi) também foi um corajoso militante socialista.

Mas agora, aos 40 anos, Vittorio mergulhou em um momento de grave crise existencial, pois ele perdeu todas as suas referências: políticas, ideológicas, familiares, pessoais e amorosas. Vittorio procura refletir sobre as causas desta situação e vai buscar pelas respostas em seu próprio passado.

Essa busca do protagonista é retratada no filme com o uso dos flashbacks, em vários momentos do filme, em cenas nas quais vemos Vittorio refletindo sobre as suas ações, amizades e relacionamentos do passado.

A belíssima Elena é apaixonada por Vittorio, mas não quer mais se limitar a ser a 'outra' na vida dele. Porém, ele não tem coragem de abandonar a família e ir viver com Elena, o que leva ao fim do relacionamento.


Vittorio Borghi é casado e tem um filho, mas o seu casamento é de mera conveniência, pois ele não sente absolutamente nada pela esposa já há muito tempo, reconhecendo, para a mesma, que não a amava mais e que, também, era um péssimo pai.

Além disso, ele diverge das políticas do PCI, em cujos jornais ele trabalha, escrevendo inúmeros artigos, mostrando que também enfrenta dilemas de caráter político e ideológico, que o levam a abandonar o partido. E para piorar ainda mais a sua crise, Borghi é abandonado pela mulher que ama, a jovem e bonita Elena.

Elena é interpretada pela bela e talentosa atriz francesa Jacqueline Sassard, que atuou em "Estate Violenta" ('Verão Violento', de 1959), de outro genial cineasta italiano, Valerio Zurlini - com quem Jacqueline foi casada - e que interrompeu a sua carreira cinematográfica depois que participou do filme "Les Biches" ('As Corças', de Claude Chabrol, de 1968). Ela se tornou muito popular na Itália a partir do final dos anos 1950, sendo que também trabalhou com outros importantes diretores do cinema italiano, como foram os casos de Alberto Lattuada, Luigi Zampa e Antonio Pietrangeli.

Elena deseja que Borghi abandone esposa e filho e se case com ela (por motivos que ficarão mais claros posteriormente), mas Vittorio se recusa a agir desta maneira, o que o leva a ser abandonado pela bela Elena, que se cansou de fazer o papel da 'outra' na vida dele.

O fim da bela história de amor que é vivida por Vittorio e Elena faz com que o primeiro inicie um processo de questionamento a respeito das decisões que tomou em sua vida. 

Assim, Vittorio encara todas as crises possíveis e imagináveis em sua vida de homem de 'meia idade': amorosas, políticas, ideológicas, familiares. 

A fim de tentar entender o que foi que o levou para essa situação de crise sentimental e existencial que enfrenta, o verdadeiro beco-sem-saída em que se meteu, Vittorio volta para a sua cidade natal (Mântua, no norte da Itália, localizada perto de Milão, na região da Lombardia), onde irá relembrar os principais fatos e acontecimentos que o levaram a tomar as decisões que, no fim das contas, desembocaram na crise que ele enfrenta naquele momento. 

De certa maneira, a nevasca que abre o filme e o tom meio 'fantasmagórico' da fotografia do filme antecipa e representa os dilemas existenciais e sentimentais que Vittorio enfrenta em sua vida naquele momento, mostrando ele e Elena juntos, em um trem, mas sem se olharem ou conversarem. 

O clima soturno e silencioso entre ambos é totalmente conflitante com um grupo de jovens que conversam e dão risada o tempo inteiro, mostrando que as preocupações sentimentais e existenciais passam bem longe deles. No final do filme, teremos uma cena um pouco semelhante a esta, mas com resultados bem diferentes. 

O silêncio entre Vittorio e Elena somente é quebrado quando, no carro, em uma rodovia, ela diz que está indo embora, terminando o relacionamento deles. 

Elena diz: 'O pior não é saber que não voltaremos a nos ver, mas que não eramos feitos um para o outro'. Ela sai do carro e vai embora, em outro veículo. Ele a segue, Elena para o carro na pista, Vittorio vai até lá, pergunta o que ocorre e ela pede que ele não pense mal dela, que o ama e que não se esqueça dela jamais. 

E vai embora...

Quando chega ao seu apartamento, ele sequer vai até o quarto da esposa, Milena, que o procura e discute com Vittorio, ficando claro que ele não a ama mais. Ela diz que ele já havia sido feliz com ela, tendo a amado, e que isso poderia voltar a acontecer, mas ele responde que se sente traído pela vida e que não há como recuperar os momentos de felicidade que já vivenciou e que não há nada que se possa fazer.

Vittorio volta para a cidade natal, Mântua, na qual reencontra um velho amigo, o comunista convicto Leonardo Varzi, ao qual conhece desde a adolescência e com o qual tem uma longa discussão a respeito dos problemas enfrentados pelo Socialismo que era uma teoria que, antigamente, explicava tudo.

A esposa sabe do seu caso com Elena, discute com ele e chora, mostrando que ainda o ama, sentimento este que não é correspondido por ele. Ela diz que Vittorio esquecerá de Elena, mas este responde que sente que toda a sua vida foi desperdiçada. Ela pede que ele volte a lhe amar, mas Vittorio não demonstra mais qualquer interesse pela esposa, que explode e grita com ele, dizendo que o odeia e que ele arruinou a sua vida. 

Vittorio também entra em conflito com os responsáveis pela publicação dos jornais do PCI (Partido Comunista Italiano, no qual militava desde a época da Resistência antifascista), pelo fato de ser proibido de escrever o que deseja, e por isso decide abandonar o Partido. Isso mostra que aos problemas sentimentais que ele enfrenta também se somam as questões políticas e ideológicas. 

Depois, ele faz as malas e embarca numa viagem que, inicialmente, era sem rumo definido. No meio do caminho, próximo a Bolonha, ele para em um restaurante de beira de estrada e conversa, de madrugada, ao telefone, com Elena (que está em Roma), a quem diz que está indo para Mântua. Mas esta pede que ele não entre mais em contato com ela e sugere que Vittorio reveja os velhos amigos em Mântua e que procure se divertir.

Obs1: Tal como em outros filmes italianos dos anos 1950 e 1960, vemos a marca da 'Esso' (Exxon) aparecer em um determinado momento. Fica a dúvida se isso era algum tipo de merchandising ou se era uma maneira de mostrar e de criticar a grande penetração econômica das empresas multinacionais dos EUA na economia italiana do Pós-Guerra. 

Vittorio
para no meio do caminho e vê um casal se amando em um veículo.

Na mansão do Conde (em Mântua), que se adaptou aos novos tempos, da modernidade burguesa, e que agora é um banqueiro inescrupuloso que procura eliminar a concorrência, Vittorio reencontra Francesca, um antigo amor. 

Depois, ele chega a Mântua, onde fica instalado em um hotel. Na cidade, ele vai reencontrar velhos amigos e conhecidos, dele e de seu pai (um velho e corajoso militante socialista), lembrando-se de episódios da época da luta antifascista, quando fez parte da Resistência, bem como revê um antigo amor, Francesca, com quem poderia ter até se casado, mas que o desprezou, preferindo se casar com um rico burguês.

Assim, ele procura nas lembranças da juventude os motivos que o levaram a tomar as decisões que o levaram ao momento de crise pela qual passa naquele momento.  

Vittorio telefona para um velho amigo, Leonardo Varzi, interpretado pelo grande ator Gian Maria Volontè, com quem combina de se encontrar na casa de um Conde. Ele tenta, novamente, conversar com Elena (mas ela não atende ao telefone), enquanto relembra momentos felizes e diálogos que teve com a ex-namorada, na qual Vittorio dizia que ela é a única que consegue mantê-lo interessado na vida e que somente quando está com ela é que ele consegue se sentir bem.  

Vittorio sai do hotel, anda pela cidade e vai parar num bar frequentado por velhos militantes comunistas. Um deles o reconhece e diz que conheceu o seu pai, Mario Borghi, um antigo militante comunista que enfrentava os fascistas sem medo. Os velhos militantes cantam e Vittorio se lembra de um episódio em que seu pai, já idoso, foi ofendido por um fascista e ele, Vittorio, o atacou, levando o fascista a fugir do local.

Em Mântua, Vittorio revê o local onde três membros da Resistência antifascista foram mortos em 1945, dois meses antes da Guerra terminar. E diz que eles morreram como heróis e não tiveram a chance de ficarem confusos, que é como ele se encontra agora, levando-o a, de certa maneira, invejar a sorte deles. 

Essa é uma forma dele se lembrar de quando lutava não apenas para defender seu pai, já morto, mas também agia em defesa de uma ideologia na qual, então, acreditava piamente e a respeito da qual, agora, possui muitas dúvidas. 

Na mansão do Conde, que se tornou um banqueiro (forma de citar a mudança pela qual passou a economia e a sociedade italianas, com a substituição da velha nobreza pela burguesia), Vittorio reencontra Varzi e outros antigos amigos de Mântua. 

Varzi (que ocupa um cargo na prefeitura, por ordens do PCI) diz que aquela reunião é tipicamente de Centro-Esquerda e que, talvez, por isso eles fiquem meio deslocados, pois ambos são comunistas, embora a casa do Conde banqueiro seja frequentada por pessoas de todos os segmentos sociais (membros da Igreja, comunistas, prefeito, etc), sugerindo que todos estejam, de uma forma ou de outra, ligados aos interesses da burguesia. 

Inclusive, um dos frequentadores, Lori, diz que sua esposa não liga que ele saia sozinho, pois todos sabem que ela casou com ele por dinheiro, o que é uma maneira de citar o triunfo dos valores burgueses na sociedade italiana. 

O Conde estranha que Vittorio esteja separado dos demais, pois se recorda que, antigamente, eram todos seus amigos. É que o Conde desconhece a crise pela qual ele passa neste momento. Vittorio está tentando restabelecer contato com as suas raízes (pessoais, familiares, políticas, ideológicas) em Mântua, mas claramente ele não está conseguindo.

Juliette Gréco, cujo penteado Francesca imitava quando, na juventude, era uma existencialista. Mas Francesca preferiu trocar as dúvidas a respeito do sentido da vida por uma boa vida burguesa ao lado de seu novo e rico marido. 

Quando é questionado pelo Conde, um colecionador de arte, a respeito do 'Realismo Socialista', Vittorio diz que aquela época era muito confusa e que, agora, a confusão é ainda maior, mas que agora eles tem consciência disso, demonstrando a crise política e ideológica pela qual está passando. 

E o Conde confessa que sonha com um mundo no qual as sedes das Igrejas e dos partidos políticos fiquem vazias... É claro, assim ficará muito mais fácil para a burguesia impor os seus interesses às demais classes e segmentos da sociedade, explorando-os sem que exista qualquer tipo de limite. Não é à toa, portanto, que a Burguesia adora apoiar regimes fascistas ou ditatoriais. 

Na festa, Vittorio também encontra Francesca, um antigo amor (já casada), e diz que eles mudaram sem se dar conta e quando olham para trás... Daí, ela o interrompe e fala que ele deve tomar cuidado para não lhe acontecer o mesmo que sucedeu com Sara, a mulher de Lot, que olhou para trás e virou uma estátua de sal, enquanto Deus destruía Sodoma e as cidades vizinhas. 

Ela diz que o verá no dia seguinte e Vittorio volta a se lembrar de momentos felizes que passou ao lado de Elena.

Varzi dá uma carona a Vittorio, à noite, na qual lembram os tempos em que jogavam bilhar, iam ao cinema e discutiam sobre tudo, e Vittorio diz que abandonou o PCI porque não se considera mais um comunista. Eles saem do carro, andam e conversam pelo centro vazio da cidade. 

Varzi questiona Vittorio sobre a sua atitude de sair do PCI, embora admita os erros de Stalin, critique a invasão da Hungria pela URSS, condene as mudanças de política de Kruschev, a ruptura entre a China e a URSS, reconhecendo que todos estes fatos são muito graves. 

Vittorio diz que, no passado, quando eles eram jovens, o comunismo era a doutrina que tinha a capacidade de explicar tudo, mas que agora isso não acontece mais. Mas o amigo Varzi diz para Vittorio que este se tornou um sentimental e pergunta porque ele não coloca os pés na terra novamente e Vittorio pergunta 'Para chegar aonde? Aonde eles me levarão?'.

"Avanti" foi um jornal socialista italiano bastante popular. No filme, o pai de Vittorio, Mario Borghi, entrou em conflito com um fascista quando foi comprar um exemplar do jornal esquerdista. 

E Vittorio completa, falando que o futuro chegou e não é aquele que eles haviam imaginado, mostrando que aquilo pelo que ele, Vittorio, Leo e muitos outros lutaram não se tornou realidade e que o futuro que se aproxima não é dos melhores. Vittorio pergunta a Leo se não aconteceria de, um dia, dois povos que seguem uma mesma bandeira (a do socialismo) não poderiam acabar lutando entre si.

Obs2: Essa fala é uma clara referência à ruptura entre China e URSS, que ocorreu no início da década de 1960, e que quase provocou uma guerra entre os dois países, embora ambos se declarassem socialistas. 

Leo diz que isso nunca acontecerá, mas Vittorio não tem tanta certeza disso, fala que inveja a fé do amigo e que seu sofrimento se dá em função de 'outras coisas', referindo-se ao fato de ter sido abandonado por Elena. 

Leo diz que todos sofrem por 'outras coisas', mas que isso não tem nada a ver, ao que Vittorio responde que tem tudo a ver e fala que 'é aí que você está equivocado', mostrando que as suas crises, de caráter sentimental, política e ideológica, estão todas interligadas, dizendo ainda que o amigo, Leo, não mudou nada e que age de forma dura, intransigente e com o mesmo rigor dos velhos tempos. 

Percebendo que não tem mais nada em comum com o velho amigo (pelo menos no aspecto ideológico), Leo não diz nada, eles entram no carro, e Leo fala que sua esposa é uma puta, que ele tem dois filhos e chora, dizendo que tem que esconder tudo isso do partido, fazendo com que ele se sinta como um cúmplice e que não pode fazer nada. Daí, ele se despede de Vittorio, que fica perplexo, não diz nada, sai do carro e Leo vai embora, mostrando que ele não é tão rigoroso e intransigente quanto Vittorio pensava.

Cena na qual Vittorio relembra um dos momentos em que viveu, feliz, ao lado da mulher que realmente amava, Elena. 

Daí, Vittorio se lembra de um fato antigo, da época da adolescência, quando um amigo (Nino), filho de um fascista, os convidou para ir comer e beber em sua casa no dia (10/06/1940) em que a Itália entrou na guerra ao lado da Alemanha Nazista e Leo foi o único que teve coragem suficiente para dizer ao pai do amigo que naquela mesma data Giacomo Matteotti (deputado socialista) foi assassinado pelos fascistas (fato que ocorreu em 1924) e que não se intimidou com os gritos do pai de Nino.

Obs3: Em 1973, o mesmo diretor, Florestano Vancini, dirigiu um excelente filme a respeito do assassinato de Matteotti, intitulado 'Il Delitto Matteotti'. 

Sozinho, Vittorio encontra um amigo (Carlo di Giusti ou Tancredi, que era o seu 'nome de guerra' na época da Resistência) dos tempos da Resistência, quando ambos eram da ''Frente da Juventude", que lutou contra os fascistas. Agora, Tancredi trabalha como um simples guarda noturno e não via Vittorio desde 1945. 

Tancredi conta que foi perseguido pela Justiça no Pós-Guerra em função de ter matado alguns fascistas durante a guerra e que ficou preso durante quase um ano por isso. 

Eles se despedem e Vittorio, sob uma forte neblina (que reflete o seu estado de espírito naquele momento), com o seu carro, visita uma propriedade rural na qual, na época da Resistência, ele, Tancredi (o líder...) e outros membros do grupo fizeram uma reunião na qual discutiram sobre o início de uma insurreição popular armada e que tinha o objetivo de derrubar o governo da República fascista fantoche instalada no norte da Itália (República Social Italiana) e de permitir que, depois, o povo italiano pudesse escolher livremente o tipo de governo que desejava para o país. 

Obs4: A 'República Social Italiana', também chamada de República de Saló (nome da capital) existiu entre Setembro de 1943 e Abril de 1945. Mussolini era o seu líder formal, mas o controle, de fato, estava nas mãos dos nazistas alemães. Mussolini era apenas um fantoche de Hitler. 

Mas os membros do grupo foram dedurados pela proprietária do local e acabaram perseguidos pelos fascistas, sendo que três integrantes do grupo (Ulderico, Anselmo e Luciano) acabaram morrendo em função disso. Inclusive, Vittorio reconheceu a velha proprietária, que o reconheceu também e fica com receio em função disso, imaginando que talvez Vittorio estivesse ali em busca de vingança, o que não é o caso. E no local temos uma placa homenageando os três Partigiani que foram assassinados pelos fascistas. 

E Vittorio reflete a respeito, dizendo que a morte fez com que eles morressem como heróis e que isso livrou os três de estarem tão confusos quanto ele e os demais, que sobreviveram à guerra contra o nazifascismo e que agora viviam uma fase de total desencanto com relação ao futuro do Socialismo e da própria humanidade.

Membros do grupo de Resistência anti-fascista se reúnem, em 1945, para planejar uma insurreição armada que irá derrubar o regime fascista fantoche que ainda existia no norte da Itália. Tancredi, com quem Vittorio se encontra quando volta para Mântua (em 1966) era o líder do grupo. 

Vittorio vai se encontrar com Francesca, dizendo que, anos antes, havia lhe falado que ela tinha o perfil de uma camaleoa, fato do qual ela se lembrou, pois ela possuiria um tipo de beleza diferente para cada momento do dia. 

Ele diz, também, que a antiga existencialista que usava roupas negras se converteu em uma elegantíssima dama, o que não deixa de ser uma observação interessante a respeito do processo de 'aburguesamento' pelo qual ela passou.

Aliás, a ideia deste 'aburguesamento' das classes sociais é algo que está presente o tempo inteiro neste filme de Vancini, comprovando a fala de Varzi, para Vittorio, quando disse que o banqueiro (capitalista, portanto) Conde recebia, em sua mansão, visitas de pessoas que pertenciam a todos os grupos sociais. 

Assim, o filme de Vancini mostra que as ideias burguesas haviam triunfado na sociedade italiana, e que, em função disso, a possibilidade de uma Revolução Socialista vitoriosa é algo que havia ficado no passado. Daí, a crise política e ideológica enfrentada pelos esquerdistas (comunistas), na época, e da qual o personagem de Vittorio é a mais perfeita representação. 

É importante chamar a atenção para o fato de que, em 1964, Bernardo Bertolucci havia defendido uma ideia muito semelhante, no filme "Prima della Rivoluzione" ('Antes da Revolução', que já foi analisado aqui no blog), no qual ele defendia a ideia de que o proletariado havia adotado os valores e os costumes da Burguesia e que, portanto, o mesmo não tinha mais qualquer pretensão de promover uma Revolução Socialista.

A bela cidade de Mântua, localizada na Lombardia, norte da Itália, onde se passam os acontecimentos deste belo, clássico e triste filme de Florestano Vancini, com seu trânsito movimentado, refletindo o 'Milagre Econômico' italiano (1955-1967) que consolidou a hegemonia burguesa e capitalista no país. 

Francesca diz, para Vittorio, que o seu retorno à Mântua havia decepcionado os seus antigos amigos. Ele concorda com isso e pergunta onde foi parar o fervor, o entusiasmo e a pureza que possuíam na juventude.

Junto com Francesca, ele visita uma loja de roupas caras que pertence a um ex-secretario e antigo líder do PCI (Olindo Civenini), que era muito poderoso e influente no passado, chegando a liderar manifestações populares que desafiavam a repressão policial. 

Olindo prosperou bastante como um comerciante nos anos 1960, o que é uma referência clara ao 'Boom' econômico que marcou a Itália nessa época, bem como ao aburguesamento dos antigos esquerdistas e das classes sociais do país. 

Para justificar a sua nova posição de burguês, Olindo diz que está convencido de que nada irá mudar na Itália e que isso é demonstrado pelo fato de que os resultados das eleições são sempre os mesmos, com o PCI e a Democracia-Cristã dividindo a maioria dos votos, em partes quase iguais, e com os outros pequenos partidos ficando com a menor parcela. E ele diz, cinicamente, que se tiverem a possibilidade de fazer uma Revolução Socialista, eles a farão.


Francesca e Vittorio se reencontram em Mântua. Eles foram apaixonados e chegaram a namorar na juventude. Na época, Vittorio a pediu em casamento, mas ela recusou, preferindo ter uma vida confortável materialmente ao lado de um rico burguês.


Quando ouve Civinini falar isso o desencantado Vittorio sorri, de forma bem irônica, é claro, pois sabe que aquilo não irá acontecer. 

Já no carro, Francesca pergunta a Vittorio se um deles tinha alguma dívida com o outro e ele diz que não, pois as dívidas já prescreveram depois de todos aqueles anos. 

Ela diz que não casou com Vittorio devido à sua covardia, fazendo com que ele diga que ela é que corre o risco de acabar como Sara, esposa de Lot. Francesca fala que, no passado, ela era um objeto à venda, à procura da melhor oferta, e que ela estava desorientada, envolta em roupas negras e com cabelo na linha de Juliette Greco, referindo-se ao seu passado de existencialista, é claro. 

Obs5: Juliette Gréco foi uma atriz e cantora francesa que ficou fortemente ligada ao Existencialismo, sendo considerada a musa do mesmo. 

Mas, Francesca confessa que, de fato, suspirava por outras coisas, como uma boa vida, confortável materialmente, um casamento, ou seja, uma vida tipicamente burguesa, enquanto recebia cartas de amor de Vittorio, que havia se mudado para Milão. 

Porém, ela diz que nunca sentiu por Vittorio o mesmo que este por ela, confessando que quase riu da cara dele quando o mesmo lhe pediu em casamento. Mas quando ele pergunta se o atual marido dela foi a melhor escolha, ela diz apenas que ele é 'uma boa pessoa', reconhecendo que não é feliz com o mesmo.

Vittorio ouve as explicações de Olindo, um ex-comunista que se tornou um próspero comerciante. Seu personagem simboliza o aburguesamento que ocorreu na Itália do final dos anos 1950 e da década de 1960, que foi a época do 'Boom' ou 'Milagre Econômico', e que atingiu várias classes e segmentos da sociedade.

Em certo momento, Vittorio diz que não quer mais recordar dos momentos do passado, quando conseguia amar ou odiar as coisas, da época da 'bela idade', que é a juventude, que é 'a estação das grandes decisões de nossa vida'. Francesca lhe pergunta porque ele não é feliz, se ele conseguiu tudo o que queria, tendo saído de Mântua, se tornado jornalista, se casado, e que estas são as coisas que importam. 

Vittorio diz que não é feliz porque 'nossa estação é passado' e que nada pode se opor à vida, e que ele passou a não acreditar em nada, reconhecendo o vazio existencial em que vive. De certa maneira, ele, Vittorio, o comunista revolucionário e repleto de certezas do passado, se transformou em um existencialista e niilista, que não crê em mais nada. 

Vittorio desabafa e diz para Francesca que esta não se casou com ele porque ambos não tinham nada e que, agora, que ela está muito bem materialmente, a mesma estaria pensando em casar com ele, como se nada tivesse acontecido durante todos aqueles anos, falando ainda que o marido dela pode ser uma boa pessoa, mas que a aborrece e a deixa entediada, e que com a desculpa do 'velho amor' ela tem uma justificativa romântica para agir assim. Ela fala que ele está louco e vai embora. 

Depois, Vittorio novamente se lembra de Elena, seu grande amor e por quem foi abandonado, relembrando o momento em que ela disse que estava grávida e que não lhe criaria problemas (referindo-se ao casamento deste, é claro). Porém, ela decide abandoná-lo, pois também deseja casar e ter filhos, mas ele não consegue abandonar a esposa e o filho que tem com a mesma. 

Assim, com a perda da jovem e bela Elena, Vittorio diz que toda a sua vida (trabalho, casamento) perdeu o sentido.

Giacomo Matteotti é citado no filme. Ele foi um deputado socialista que denunciou as fraudes eleitorais promovidas pelos fascistas nas eleições de 1924, fato este que levou ao seu assassinato. Em 1973, Florestano Vancini dirigiu um clássico filme sobre o acontecimento, 'Il Delitto Matteotti". 

Vittorio culpa Elena pela situação, ela concorda, mas diz que ele se arrependerá da decisão de terminar o relacionamento com ela e que ela se sente envergonhada de ser apenas 'a outra' na vida dele, que fica desesperada quando retorna para casa, após os seus encontros, e que ela aspira a ter uma casa, filhos... Ela diz que lhe agrada o fato deles serem amantes, mas que isso não é o suficiente e fala que ele precisa tomar uma decisão (ou seja, de terminar ou não o seu casamento em função dela, Elena). 

Vittorio implora para que Elena não o obrigue a tomar uma decisão, mas ela diz que se ele abandoná-la e eles voltarem a se ver, ela irá ignorá-lo. 

Portanto, fica claro, pelas lembranças de Vittorio, de que ele teve, sim, uma grande responsabilidade pelo fato do seu relacionamento com Elena ter acabado. Afinal, faltou-lhe a coragem necessária para se divorciar da esposa, pela qual já não sentia nada há muitos anos, e cujo casamento estava literalmente falido, para poder ir viver com Elena, que era o seu grande amor e que estava grávida, esperando por um filho dele. 

Depois, ele vai visitar o cemitério em que seu pai (Mario Borghi) e a sua mãe (Alma Lambertini) foram enterrados. No local, narrando, Vittorio diz que para os seus pais viver era algo simples e natural e que, mesmo assim, eles eram felizes. E se perguntava de onde eles tiravam as forças para isso. E reconhece que ele não tem mais fé e nem entusiasmo para continuar a viver.

Daí, Vittorio se pergunta qual é a razão de sua vida? Sua resposta é 'dar um testemunho de dignidade', e que para isso ele terá que negar todas as retóricas e todos os uniformes, ou seja, não se prender a nenhuma ideologia, religião ou preconceito. 

Depois, temos a sequência final deste belo filme de Florestano Vancini.

Vittorio, pouco antes do ataque de fúria, quando extravasou toda a sua frustração pelos fracassos acumulados em sua vida familiar, amorosa, política e ideológica.

Nela, Vittorio vai a um lugar público no qual um grupo de jovens dança, alegremente e ao ar livre, ao som de músicas que são tocadas numa jukebox. 

Quando observa toda aquela energia e felicidade espontânea, a qual um dia já vivenciou, ele acaba explodindo, quebrando copos, mesas, o jukebox, enquanto grita 'Não me terás nunca mais' e 'Não me julgará mais', sentindo-se frustrado por não desfrutar mais de momentos como aquele em sua vida, principalmente depois que seu relacionamento com a bela Elena terminou. 

Vittorio chora... 

E vai embora... 

Em busca de Elena? De outro amor? Ou ele está indo em direção à morte? 

Não sabemos. 


Informações Adicionais!

Título: Le Stagioni del Nostro Amore (As Estações do Nosso Amor);
Diretor: Florestano Vancini;
Roteiro: Florestano Vancini; Elio Bartolini;
Ano de Produção: 1966; 
País de Produção: Itália;
Duração: 101 minutos;
Elenco: Enrico Maria Salerno (Vittorio Borghi), Jacqueline Sassard (Elena); Anouk Aimée (Francesca); Gian Maria Volonté (Leonardo Varzi); Gastone Moschin (Carlo di Giusti ou Tancredi); Valeria Valeri (Milena, esposa de Vittorio); Checo Rissone (Olindo Civenini); Pietro Tordi (Mario Borghi, pai de Vittorio); Bruno Garilli (Loris Macchi).

Prêmio: 
Vencedor do Prêmio da Fipresci (Federação da Crítica Internacional) do Festival de Berlim, em 1966.

Links:

Informações sobre o filme:

Morte de Florestano Vancini, aos 82 anos, em 2008:
 
Trailer do Filme:

 

Comentários